domingo, 28 de novembro de 2021

1979

O sol da tarde filtrava-se por entre as folhas da velha árvore, dançando no chão de maneira tão familiar que, por um instante, o tempo parecia ter parado. Aquele menino de quatro anos, que um dia havia feito o número quatro com os dedos das mãos, ressoava em seu coração como um eco distante. Quarenta anos haviam se passado, mas a luz do passado ainda iluminava as sombras de sua vida. Agora, ele estava de volta à calçada da infância, aquele mesmo lugar onde o entusiasmo do aniversário se misturava ao perfume das flores e ao riso das crianças que brincavam.

Ele olhou para os dedos, agora calejados pelo tempo, e lembrou-se do simples prazer de ser criança, de correr sem destino, de andar de bicicleta pela vizinhança, sentindo o vento leve que trazia promessas de aventuras. As risadas de outros garotos ainda pareciam flutuar no ar, e os rostos dos adultos, que há muito se apagaram das memórias claras, apareciam como sombras, lembranças de um mundo pleno de amor e proteção.

A casa antiga, com suas paredes que guardavam segredos e histórias, estava lá, como um guarda da sua infância, e seu coração aperta ao se lembrar da mãe. Acariciando a casca rugosa da árvore, ele fechou os olhos e deixou que os fragmentos do passado invadissem sua mente. Aquelas tardes silenciosas, em que o tempo se estirava como um elástico, e os passeios na praça, onde cada passo era uma descoberta. Ele se viu brincando com os brinquedos que se espalhavam pelo jardim sob a janela, cada um um universo em si mesmo.

Essas memórias, muitas vezes doces, também traziam um peso que não podia ser ignorado. Elas doíam. Este amor que um dia foi puro agora se misturava com a saudade, um amor incondicional que se tornava cada vez mais distante, como uma brisa que só deixa saudade ao tocar a pele. Ele respirou fundo, sentindo a dor e o amor entrelaçados, como se cada lembrança fosse um fio delicado que o conectava ao passado e, ao mesmo tempo, à sua própria fragilidade.

Às vezes, o tempo faz isso — transforma a inocência em melancolia, a alegria em saudade. E ali, naquela calçada, o menino de quatro anos e o homem de quarenta se encontraram. Ele abriu os olhos, e, com um sorriso triste, fez novamente o número quatro com os dedos. Para reafirmar sua existência, para celebrar não apenas o passar do tempo, mas a jornada que cada um desses anos representou. Era um gesto carregado de emoção, um tributo à criança que ainda habitava sua alma.

A vida, como aquela velha árvore, tinha seus anéis de crescimento — alguns espessos e vibrantes, outros finos e desgastados, mas todos indispensáveis para a sua estrutura. Cada cicatriz, cada alegria, cada perda, agora ressoava dentro dele como notas de uma música antiga que nunca deixara de tocar. Ele se lembrou da vitalidade daquele garoto que, ao olhar para os dedos, estava tão consciente do tempo passando, tão ansioso por crescer, tão repleto de sonhos e esperanças.

Enquanto o sol se punha, pintando o céu de laranja e rosa, ele sentiu uma onda de gratidão. A lembrança da mãe. E assim, ao deixar aquele lugar que havia moldado sua infância, o homem percebeu que a dor das memórias não era um fardo, mas um presente. Elas o conectavam à sua essência, às raízes que o sustentavam.

Com um último olhar para a casa antiga e a calçada que guardava vestígios de risadas e corridas, ele virou-se e começou a andar. As lembranças passaram a ser um manto que o envolvia, acolhedor, mesmo com sua balança de dor e beleza. E quem sabe, em algum momento, ele poderia retornar novamente, não para buscar o que foi perdido, mas para celebrar quem ele se tornara. Porque dentro de cada fragmento de memória, havia não apenas saudade, mas a eterna possibilidade de renascimento. E essa era a magia da vida — mesmo que as memórias doam, elas sempre nos conduzem de volta ao amor que tudo começou.


Ricardo Jimenez