quinta-feira, 30 de abril de 2026

A peneira do Comercial

Era uma manhã radiante de um dia de outono de 1988. O sol despontava no horizonte, prometendo um dia bonito, mas a verdadeira temperatura naquele momento era medida pelo nervosismo e pela expectativa que me dominava. Meu primo Samuel e eu, com apenas 12 anos, éramos tão apaixonados por futebol que havia uma chama ardente dentro de nós, uma fome insaciável de jogar, de fazer parte do universo mágico que se desenhava ao nosso redor. Na véspera, teria sido impossível dormir. A ansiedade pulsava nas veias como a adrenalina antes de um grande jogo. Dormi na casa do meu tio e, por mais que tentasse, as horas se arrastavam; cada minuto se transformava em uma eternidade.

Levantamos cedo, quase que ainda sob a luz da lua, pegamos o ônibus e rumamos em direção ao clube do Comercial, que se erguia ao lado do mítico estádio Palma Travassos — a “jóia” do Jardim Paulista. A cada quilômetro percorrido, o meu coração batia mais forte, embebido em sonhos e esperanças. Aquela “peneira” era a nossa grande chance de mostrar nosso talento, de sermos vistos e, quem sabe, de entrar para a base do time do Leão. Mistos de ansiedade e excitação se entrelaçavam, criando um turbilhão em nossos ânimos.

Chegamos e já fomos dando os nomes e as posições em que jogávamos para o organizador da peneira. A manhã correu com um jogo atrás do outro, com os times montados aos gritos dos nomes e das posições de acordo com as inscrições. 

Quando chegou minha vez de jogar, a responsabilidade quase me paralisou. Entrei em campo como ponta esquerda; o cheiro da grama e o eco dos gritos das crianças se misturavam com as instruções do olheiro que observava cada movimento com um olhar clínico. Havia poucas chances de tocar na bola, e quando essa oportunidade surgisse, precisava ser perfeita. Joguei como se minha vida dependesse disso. Quando finalmente recebi a bola, tudo aconteceu em câmera lenta. Olhei para dentro da área e, com um movimento ágil, fiz um cruzamento preciso, colocando a redonda na cabeça do atacante como um artista que encaixa a peça final em uma obra-prima. O olheiro gritou: “Boa bola!” e eu senti uma onda de realização percorrer meu corpo. Um pequeno triunfo num universo cheio de incertezas.

Quando finalmente chegou a vez do Samuel, a mágica se repetiu. O garoto, rápido como um raio, foi direto para a área. Na primeira bola que tocou, ele penetrava na área adversária, e com um toque sutil, fez o que mais amávamos: marcou um gol. O grito do olheiro, anotando outra observação na prancheta, ecoou em nossos corações. A manhã passou, e quando os resultados finalmente saíram, somos recebidos por uma notícia que alimentou nossos sonhos: Samuel e eu estávamos aprovados. Éramos parte da base do Comercial, o primeiro passo numa jornada que esperávamos ser gloriosa.

Ainda nas nuvens, ouvimos o organizador do clube dizer que os aprovados poderiam passar o resto do dia na piscina. Naquele momento, éramos reis. Mas a felicidade tinha um sabor agridoce, como a mistura entre a alegria e a fome que começava a nos atacar. O tempo passava e já era quase 15h quando a necessidade de alimento se fez sentir com mais intensidade. Jurávamos que íamos morrer de fome, porque o dinheiro que tínhamos só dava para o ônibus. Foi nesse momento que a ideia surgiu: "Vamos a pé até a casa do vô?" Perguntei, envolto na esperança de que ali encontraríamos um santuário.

“Boa, lá deve ter comida!” Samuel respondeu com os olhos brilhando, e assim partimos. Mas a casa do vô ficava no final da avenida 13 de Maio, uma jornada de quase 4 quilômetros, e a cada passo, a caminhada piorava. Nossos estômagos roncavam de um jeito tão alto que podiam ser ouvidos até em nossos sonhos. As paradas para descansar na calçada tornaram-se inevitáveis, enquanto o calor da tarde se tornava quase insuportável. No entanto, a perspectiva de estar com nosso avô, de ouvir suas histórias enquanto devorávamos um lanche, valia cada esforço.

Finalmente, ao alcançarmos o portão da casa do vô Ricardo, o coração disparou. Ao abrir aquele portão, o chamado de “Vô! Vô!” escapou de nossas bocas, repleto de uma alegria genuína. Lá do fundo do quintal, apareceu meu avô, sorridente e iluminado pela luz do sol. Ele sempre cultivava uma horta que era o orgulho da família, e a enorme jabuticabeira, cenário de tantas brincadeiras, parecia sussurrar nossas memórias. Meu vô ria enquanto narrávamos as aventuras do dia, cada palavra batendo com a leveza de uma pluma.

Pão com manteiga, um generoso copo de leite com "toddy" e algumas bananas estavam à nossa espera, um banquete simples mas divino. Aquele momento foi não apenas um alívio para nossa fome, mas uma pausa para recordar nossas infâncias despreocupadas. Enquanto devorávamos aquilo, a felicidade nos invadia, e a saudade daquele dia nunca poderia ser extinta.

38 anos se passaram desde aquele dia, e mesmo hoje, sempre que Samuel e eu nos encontramos, não conseguimos evitar reviver aquela memória. O dia em que fomos aprovados na peneira do Comercial é eterno em nossos corações, assim como a casa do vô, nosso refúgio seguro, onde a simplicidade e o amor de uma refeição uniam nossos laços familiares, eternamente impresso em nossas memórias. O futebol ficou nos nossos sonhos, assim como a casa do vô Ricardo, mas, são os pequenos momentos da vida que se tornam as grandes lembranças, e a história do Comercial e do vô Ricardo será sempre a narrativa que nos une.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O dia que eu nunca devia ter ido embora

Você já se arrependeu de algo que fez? Eu já, e essa história conta um desses arrependimentos. O ano era 1988, eu tinha apenas 12 anos e estava na 6ª série da escola Musa, no Ipiranga, em Ribeirão Preto. Era uma quinta-feira, véspera de feriado, um desses dias em que a escola costuma estar vazia. Naquela manhã, disse para minha mãe que, ao invés de ir à escola, eu visitaria meu avô Ricardo, que morava do outro lado da cidade. E assim fiz: peguei um ônibus e fui.

Lembro-me de ter passado a manhã inteira com ele, almoçamos e batemos papo na varanda. Fomos ao quintal colher verduras para o almoço, momentos simples, mas cheios de significado. No entanto, o que ficou mais marcado na minha memória foi o nosso último diálogo. “Vô, preciso ir embora.” Isso deve ter sido por volta das 14h. Ele me respondeu: “Mas sua mãe disse que hoje você não teria aula e poderia ficar aqui. Amanhã é feriado”. A partir daí, o que fiz e disse se transformou em uma das maiores fontes de arrependimento da minha vida. 

“Eu preciso ir porque combinei com uns amigos de estudar para uma prova na segunda.” Menti. Inventei uma desculpa porque queria voltar para encontrar minha namoradinha na praça. Assim, deixei meu avô, prometendo retornar no dia seguinte, no feriado. Contudo, acabei não voltando, como geralmente acontece quando deixamos promessas pendentes. Um ano depois, meu avô faleceu.

Hoje, o que eu mais gostaria era ter tido mais tempo ao lado dele, uma figura ímpar, repleta de histórias e lições para compartilhar. Como eu queria ter aprendido a pescar com ele, a tecer uma rede de pesca, a plantar uma horta, a jogar malha e a conhecer melhor sua história de vida, os tempos em que ele percorreu a Ribeirão antiga. Mas naquele dia, em que eu tinha a chance de vivenciar tudo isso, decidi ir embora, sem perceber que a vida é feita de momentos. Se não prestamos atenção, esses momentos passam, e ficamos à mercê da saudade e do arrependimento. É isso...

sexta-feira, 10 de abril de 2026

As aventuras do Zé Barnabé

Era uma vez um homem muito, mas muito pobre, que morava numa casinha coberta com pau de mandioca. O sol já começava a se pôr, tingindo o céu de laranja, quando Zé Barnabé, com a emoção estampada no rosto, se virou para seu velho pai.

— Pai, vou sair pelo mundo! Preciso encontrar um jeito de nos livrarmos dessa pobreza — disse Zé Barnabé, a determinação transparecendo em sua voz.

Seu pai, com o olhar cheio de orgulho e preocupação, acariciou a cabeça da cadelinha Perigosa, que olhava atenta.

— Meu filho, leve consigo a nossa essência e a coragem de um coração valente. Esteja sempre alerta e lembre-se: a bondade sempre traz recompensas.

Com um abraço apertado e lágrimas nos olhos, Zé Barnabé despediu-se. Ao se afastar, sentiu-se esperançoso, mas também ansioso. A estrada à sua frente era um mistério.

Enquanto isso, em um castelo distante, a princesa Sofia vivia sua triste sina, uma solidão que nem mesmo as riquezas do reino conseguia curar. Sofia costumava observar o mundo ao redor através de um espelho mágico. Assim, ela viu seu pai conversar com seus conselheiros sobre um concurso que escolheria o mais corajoso varão que iria desposar sua filha. O coração da princesa apertou de apreensão.

— Quem será este homem que irá vencer este concurso? Meu destino é cruel! — ela sussurrava, envolvendo-se em um misto de tristeza e ansiedade.

Zé Barnabé seguia seu caminho pela estrada silenciosa quando ele se deparou com uma formiga que gritava por socorro, presa no cocô de cavalo.

— Por favor, me ajude! Estou presa aqui! — implorou a formiga, seus olhinhos brilhando com medo.

— Não se preocupe, formiguinha! Vou te tirar daí — respondeu Zé Barnabé, puxando-a para libertá-la. 

A formiga, aliviada, limpava-se e olhava Zé com gratidão.

— Obrigado, cavalheiro! Com quem eu tenho a honra de falar?

- Me chamo Zé Barnabé, um sitiante em viagem por este mundo de Deus...

- Sua bondade será recompensada. Em retribuição á sua atitude, quero te presentear com uma de minhas perninhas. 

A formiguinha puxou e arrancou uma de suas perninhas...

- Na hora do perigo, sopre-a e me chame. Estarei lá para o que for preciso!

Zé Barnabé sorriu, guardando a perninha com carinho e seguia em frente na sua jornada.

Logo mais a frente, ele se deparou com um lago seco onde um peixe dourado revirava-se em agonia na areia.

— Por favor, não me deixe morrer! — lamentou o peixe.

— Você vai viver! — assegurou Zé Barnabé, correndo até o rio e carregando-o em suas mãos. 

Assim que o colocou de volta na água, o peixe sorriu.

— Você é um bom homem. Em gratidão, te presenteio com uma de minhas escamas. Na hora do perigo, sopre-a e chame por mim. Eu estarei lá por você!

Zé Barnabé fez uma pausa para descansar e refletir. 

- Essa caminhada está cheia de surpresas. 

Porém, a natureza ainda lhe reservava mais surpresas. 

Após alguns quilômetros, ele avistou um urubu rei com a asa machucada, contorcendo-se de dor na beira da estrada.

— O que aconteceu com você, meu pobre pássaro? — perguntou Zé Barnabé, correndo até a ave.

— Um caçador me feriu. Não consigo voar! — lamentou o urubu.

Com um gesto de compaixão, Zé Barnabé ajustou a asa machucada que estava com a articulação fora do lugar.

— Obrigado, amigo! — disse o urubu. — Em retribuição ao seu gesto de compaixão, te dou uma de minhas penas. Soprando-a, na hora do perigo, me chame e voarei até você!

Com a pena, a escama e a perninha, Zé Barnabé seguiu em frente, enquanto Sofia o observava no espelho mágico...

— Este Zé Barnabé é um homem bom! Não conheço muitas pessoas assim na vida! — ela exclamava, sem conseguir desviar os olhos do reflexo dele.

Ao chegar à capital do reino, Zé Barnabé entrou em um bar e ouviu sobre um concurso incrível: uma competição para encontrar o noivo da princesa. Os mais ricos homens do reino já haviam se inscrito. No bar, o concurso era o comentário do momento.

O príncipe do reino vizinho, um rapaz malicioso e oportunista, já planejava as artimanhas que o levariam à vitória. Ao observar isto pelo espelho mágico, Sofia ficou com medo.

- Não posso me casar com este sujeito desonesto e cruel. Mas ele tem poder para manipular a competição e vencer. O que faço?

No mesmo instante, os olhos da princesa brilharam...

No balcão do bar, ainda incerto do que fazer na capital do reino, Zé Barnabé tomava um trago quando um mensageiro o cutucou as costas...

-Você se chama Zé Barnabé? - disse o mensageiro.

-Sim.

O mensageiro estendeu a mão e deu a Zé um bilhete com as seguintes palavras: "Se inscreva no concurso, vença e tenha seu destino em suas mãos..."

Zé não entendeu nada. Ao se virar, o mensageiro já havia partido.

-Me insrever no concurso? Mas como vencer os adversários? São ricos e eu um pobre miserável sem futuro...

Ficou pensando por um tempo até que respirou fundo, tomou o último gole, se levantou e tomou a direção do castelo...

-Não tenho nada a perder e meu pai me disse que a bondade tem recompensa, vamos ver...

A princesa, olhando tudo pelo espelho, sorriu de alegria.

Zé realizou a inscrição e no dia do início do concurso, estava lá ao lado dos demais concorrentes.

O arauto anunciou a tarefa: "Quem conseguir chegar ao topo da grande montanha, apanhar o ovo da grande águia prateada e regressar ao castelo, terá a mão da princesa em casamento.

O príncipe desonesto olhou Zé Barnabé de alto a baixo.

— Eu não posso perder para um plebeu! — riu ele, ordenando que seus capangas eliminassem de cara o tal de Zé Barnabé.

Dito e feito. Os concorrentes saíram cada um para seu lado e, na primeira curva da estrada, os capangas do príncipe pegaram Zé Barnabé e o amarraram no tronco de uma árvore.

Preso à árvore, Zé Barnabé sentiu que tudo estava perdido até que se lembrou da perninha da formiga que estava no bolso de seu casaco. Se contorcendo com esforço, Zé alcançou a perninha e a soprou dizendo: "Valei-me, formiguinha". Em minutos, um exército de formigas roeu as cordas. Zé estava livre!

Ao olhar para trás ele viu a formiga e fez uma aceno de agradecimento.

Sofia, olhando o espelho mágico, vibrou.

Mas o príncipe desonesto armou outra cilada, fazendo Zé Barnabé confundir o caminho e se perder na margem oposta de um grande rio. 

— Eu preciso atravessar, mas como?! — disse Zé Barnabé. 

De repente, se lembrou da escama... Soprando o presente, logo o peixe dourado surgiu do fundo do rio.

— Suba nas minhas costas, e eu te levarei! — disse o peixe.

Agradecido, Zé Barnabé atravessou o rio e seguiu em segurança. 

Finalmente, chegou ao topo da montanha mágica e encontrou o ovo, brilhando sob a luz do sol. Vagarosamente, se esgueirou por debaixo da águia mãe, apanhou o ovo e saiu sem acordar a grande e perigosa ave.

— Eu consegui! — ele exclamou.

Mas no momento em que se virou, viu os capangas do príncipe maligno cercando-o, prontos para atacar.

— Não deixe ele escapar! — gritou um deles.

Desesperado, Zé Barnabé lembrou-se da pena que o urubu lhe dera. Ele a soprou, e o urubu rei apareceu, fazendo um mergulho brilhante.

— Prenda-se em minhas garras, Zé! — disse o urubu.

Zé Barnabé agarrou-se com força. Com um bate de asas majestoso, o urubu voou alto, deixando os capangas perplexos lá embaixo.

Lá de cima, Zé Barnabé viu o castelo ao longe. 

— Estou indo, princesa Sofia! — ele gritou, sentindo uma emoção intensa.

No palácio, Zé Barnabé foi recebido com aplausos e a princesa, com um brilho nos olhos, aproximou-se dele.

— Eu torci por você todo o tempo! — declarou ela, emocionada.

— Eu fiz tudo isso para te encontrar — respondeu Zé Barnabé, seu coração acelerado.

Com a bênção do rei, eles se casaram sob a luz de mil estrelas, e juntos buscaram o velho pai e a querida Perigosa.

E assim, Zé Barnabé viveu feliz, sempre cercado de amor e gratidão, sabendo que a bondade e a coragem podem transformar a vida de qualquer um, não importando quão pobre ele possa ser. Zé viveu o resto de sua vida junto de Sofia, fazendo o bem para a população do reino.

Samuel marcou de cabeça

O futebol esteve presente na essência da minha vida dos 7 aos 17 anos, um amor que me moldou, que me fez mais forte e me ensinou a enfrentar desafios com bravura e um sorriso no rosto. Aqueles dez anos não foram apenas um passatempo; foram uma imersão em um mundo onde cada drible, cada gol e cada derrota eram lições de vida, construindo amizades e vínculos que transcenderam o campo. Entre risos e lágrimas, conheci o medo e a confiança, mas, acima de tudo, aprendi a valorizar a jornada.

Uma das maiores histórias que esse esporte me proporcionou foi a relação que formei com meu primo Samuel. Desde pequenos, éramos inseparáveis, filhos de famílias unidas pela paixão pelo jogo. A memória mais vívida que guardo dessa ligação foi um dia de domingo, em que nos encontramos frente a frente com o desafio mais audacioso de nossas vidas: a final do campeonato de futebol society da quadra do Gordinho, um evento lendário que pulsava no coração da região norte de Ribeirão Preto.

A quadra estava repleta, pulsando com gritos de apoio, baterias ressoando, e o ar estava carregado de uma mistura de ansiedade e expectativa. Assim que a partida começou, fomos pegos de surpresa — dois gols rápidos do adversário deram um golpe na nossa confiança. O sentimento de desespero parecia nos envolver, mas ainda não conhecíamos a mágica que estava prestes a acontecer.

Naquele momento crucial, com o nosso destino em jogo, o universo conspirou a favor da nossa conexão. Recebi a bola, e com um toque certeiro, cortei para o meio do campo. Com toda minha força e alma, bati de esquerda, uma trajetória direta ao ângulo. O grito de “gol” ecoou em nossos corações. Olhei para Samuel e vi a confirmação em seu olhar, um gesto que dizia: "Isso aí, primo, estamos juntos!".

Minutos depois, o goleiro adversário lançou a bola em minha direção. O tempo parecia ter parado. Dominei com precisão e, instantaneamente, percebi Samuel se movimentando à minha frente, braço levantado, pedindo a bola. Com um cruzamento perfeito, cobri o zagueiro e a bola encontrou sua cabeça, um momento em que o mundo parecia se alinhar perfeitamente. O gol do empate não era apenas um prêmio pela nossa perseverança, mas uma celebração de nossa ligação de sangue, de sonhos e companheirismo.

Apesar de termos perdido aquela final por 3 a 2, o que realmente importa é que aqueles dois momentos tomaram forma, esculpindo um lugar sagrado em nossas memórias. O jogo se transformou em um símbolo de nossa juventude, um refletor sobre como o futebol não era apenas um esporte, mas um forjador de emoções e laços que nos acompanhariam para sempre.

Naquele dia, no calor da quadra, senti a presença intensa do meu primo, e percebi que, juntos, enfrentávamos mais que adversários: estávamos batendo de frente com a vida. O futebol nos ensinou que, mesmo nas derrotas, existem vitórias que ecoam em nossas almas, entrelaçando nossos destinos, ligando-nos eternamente através das memórias de um simples jogo.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Amor verdadeiro...

Milhares de pessoas passam a vida imersas em sonhos, idealizando o amor verdadeiro, aquele sentimento profundo que aquece a alma, mas que muitas vezes se disfarça sob a chama passageira de uma paixão efêmera. Por muito tempo, eu fui uma dessas pessoas sonhadoras, buscando aquele amor que promete eternidade, que é mais do que fogo na palha. E, de certa forma, eu o encontrei. Ou melhor, eu o senti vibrar em meu coração, fazendo ecoar uma certeza quase mágica.

Sei distinguir o amor verdadeiro de todas as outras experiências que já vivi; conheço sua essência e seu peso. Dediquei anos dessa caminhada ao amor que, em minha mente, se apresentava como definitivo. Com todas as minhas forças, fiz dele meu propósito, entreguei-me sem reservas, acreditando que, ao desempenhar meu papel, ele floresceria e se tornaria a realidade que almejava.

Contudo, a vida tem um jeito peculiar de nos ensinar sobre as nuances do amor. A verdade, que às vezes é difícil de engolir, é que eu senti o amor verdadeiro, mas não tive a oportunidade de vivê-lo plenamente. Senti sua profundidade, sua beleza, mas ele se mantinha distante, como um sonho que não se concretiza. Se alguém me perguntar, hoje, o que eu realmente penso disso, a resposta se dissolve em incertezas: não sei ao certo.

É reconfortante saber que o amor verdadeiro existe, um sentimento tão poderoso, tão raro. Mas, ao mesmo tempo, é doloroso perceber que ele escolheu não ficar comigo, que seus caminhos seguiram em outra direção. Essa ambiguidade do saber e do sentir me deixa em um turbilhão de emoções. O amor verdadeiro pode ser uma luz que ilumina, mas também uma sombra que nos deixa na penumbra, lembrando que, às vezes, o que mais desejamos está ao nosso alcance, mas não da forma que imaginamos.

Pôr do Sol na varanda

Acordou bem cedo, como era seu costume. Preparou o café e saboreou lentamente a bebida, fixando o olhar na parede da sala, perdido em seus pensamentos. Naquela manhã, demorou-se mais do que o habitual; uma sensação de melancolia parecia prendê-lo ali. Após alguns minutos, com um esforço visível, saiu para cuidar dos animais, sendo saudado pelo canto do Bem-Te-Vi. Sorriu, como sempre, e devolveu o cumprimento, mas notou que o pássaro parecia também carregar um ar de tristeza.

Após cumprir suas tarefas domésticas, lavou o rosto, bebeu da água da moringa e seguiu pela estrada, ciente de que ainda tinha muito a fazer. No entanto, aquela manhã carregava algo de diferente, uma inquietação no ar. Foi então que um perfume conhecido invadiu suas lembranças, um aroma do passado que ele não conseguia identificar a origem. Nenhuma flor daquela trilha tinha aquele cheiro especial. Imediatamente, lembrou-se de um sorriso, vislumbrou um leve movimento de cabelos e uma forma de andar. O coração apertou junto com seus passos, e ele acelerou o ritmo na tentativa de se afastar daquela lembrança.

Mergulhou-se no trabalho, tentando se distrair. Ao voltar para casa, exausto, tomou um banho gelado e serviu-se de um trago de cana. Depois, acendeu um cigarro de palha e se acomodou na varanda. Observou o pôr do sol em sua cadeira de balanço, ouvindo o “boa noite” do seu amigo Bem-Te-Vi. À medida que a noite se instalava, a penumbra encobriu uma lágrima solitária que escorregou por seu rosto. Ali, em seu cantinho isolado, o que lhe restava? Apenas o trabalho, o Bem-Te-Vi e uma profunda saudade...

quinta-feira, 2 de abril de 2026

A unha do tamanduá

Era uma época em que a vida pulsava nas fazendas, onde as caçadas e pescarias eram o coração da existência, e as conversas à luz do candeeiro aqueciam as noites após um dia de trabalho. Nessa agitação, vivia uma figura excepcional: Zé Colodino.

Eu, ainda um menino, conheci-o numa tarde ensolarada, levado por meu avô. Nessa fase, Zé já residia na cidade, aposentado das lidas do campo, em uma casa que exibia uma varanda fresca, rodeada por um quintal extenso, perto da antiga estação. Apesar de nossas interações serem poucas, talvez apenas uma dúzia de encontros, as histórias que ele contava na varanda marcaram minha infância indelével.

Uma dessas histórias, em particular, tornou-se um símbolo de coragem e aventura em minha memória. 

As caçadas na mata do Capão eram o passatempo mais cobiçado das tardes de domingo. Não se tratava de caçadas ordinárias; ali podia-se caçar de tudo, desde um simples tatu-peba até um bando de codornas, um cateto e, quem sabe, até uma onça. É verdade que onças, de fato, nunca apareceram, exceto por uma ou outra jaguatirica miúda, mas a ideia de enfrentar uma onça sempre pairava no ar.

Naquela tarde, Zé Colodino armou-se de coragem, acompanhado de seu compadre e dos fiéis cães de caça: Perigosa, uma cadela desenvolvida por bravura, e Corisco, um vira-lata preto, astuto e com um faro inigualável. Com a garrucha de cano duplo e o facão guarani pendurados ao cinto, Zé Colodino liderou o grupo na travessia da trilha.

A mata do Capão, vasta e inexplorada, já assustava à luz do dia; à noite, era um mistério profundo, habitado por perigos visíveis e invisíveis. O medo da onça pairava sobre todos, embora poucos tivessem coragem de mencioná-lo em voz alta. O compadre, de face pálida e olhos arregalados, revelava que aquela era sua primeira vez e a aventura que o aguardava ainda estava no horizonte.

“Vamos ‘bordejar’ essa mata, meninos!”, exclamou Zé, enquanto assobiava um tom de esperança. A caçada começava na transição do dia para a noite, e os sons da natureza cresciam ao redor deles. Corisco parou abruptamente, orelhas em pé.

— Shhh! — Zé fez um gesto para que todos se agachassem, inclusive Perigosa, que se aproximou dele.

O compadre, com o coração acelerado, murmurava baixinho: “Que seja um tatu… Por favor, não uma onça.” 

E então, os olhos de Zé brilharam. — “É um casal de catetos! Vai, Perigosa!”

Com um salto poderoso, os catetos dispararam mato adentro, seguidos pela cadela e Corisco. Zé Colodino mergulhou na mata com um fervor impressionante, e o compadre, tomado pelo espírito da aventura, não ficou para trás. 

A escuridão começou a tomar conta da floresta, mas, seguindo os latidos frenéticos dos cachorros, o compadre encontrou o local onde Perigosa guardava o cateto abatido. A carne e a banha da semana estavam garantidas, mas Zé… onde estava Zé Colodino?

Um estrondo cortou o ar, o tiro da garrucha reverberando a cerca de cinquenta metros de distância. Com o coração no peito, o compadre lutou através da vegetação até que ouviu gemidos agonizantes. — “Ai, ai…”

Quando finalmente encontrou Zé, ele estava preso em uma moita de taboca, o corpo quase que todo enredado naquelas folhas traiçoeiras.

— “Que foi, Zé?” — perguntou o compadre, com uma voz trêmula.

— “Me ajuda, homem!” — a voz de Zé soava desesperada.

Com habilidade e um punhal afiado, o compadre cortou as amarras de taboca que prenderam Zé. Mesmo ensanguentado, não havia tempo para palavras; pegaram o cateto e retornaram.

Na sala de casa, depois de tratar da ferida nas costas, Zé se levantou, um brilho travesso nos olhos. — “Olhem isso!” Ele exibiu a unha afiada do tamanduá-bandeira, que quase lhe custara a vida.

— “O que aconteceu?”, perguntou um dos presentes, admirado.

— “Eu não vi o tamanduá! Quando entrei na mata, mudei de direção e caí na toca da besta! O bicho me abraçou, e só não fui pro beleléu porque a unha grudou na taboca...”

Todos riram, menos eu. O silêncio se instalou, enquanto absorvia a intensidade da história. Zé lançou um olhar cúmplice para mim e para meu avô. Ambos riram de forma descontraída, e Zé se levantou, retornando à varanda. Ele estendeu a mão na minha direção, revelando a unha do tamanduá.

— “Quer ver mais?”

Nem me recordo da minha resposta, mas ao tirar a camisa, vi a marca na própria pele, na altura do pulmão.

No caminho de volta para casa, a conversa fluiu como um rio tranquilo; meu avô parecia perdido em pensamentos, mas eu sabia que a história do Zé Colodino, a unha do tamanduá e aquela marca nas costas me acompanhariam para sempre, como um eco das aventuras que moldaram minha infância.