sexta-feira, 10 de abril de 2026

As aventuras do Zé Barnabé

Era uma vez um homem muito, mas muito pobre, que morava numa casinha coberta com pau de mandioca. O sol já começava a se pôr, tingindo o céu de laranja, quando Zé Barnabé, com a emoção estampada no rosto, se virou para seu velho pai.

— Pai, vou sair pelo mundo! Preciso encontrar um jeito de nos livrarmos dessa pobreza — disse Zé Barnabé, a determinação transparecendo em sua voz.

Seu pai, com o olhar cheio de orgulho e preocupação, acariciou a cabeça da cadelinha Perigosa, que olhava atenta.

— Meu filho, leve consigo a nossa essência e a coragem de um coração valente. Esteja sempre alerta e lembre-se: a bondade sempre traz recompensas.

Com um abraço apertado e lágrimas nos olhos, Zé Barnabé despediu-se. Ao se afastar, sentiu-se esperançoso, mas também ansioso. A estrada à sua frente era um mistério.

Enquanto isso, em um castelo distante, a princesa Sofia vivia sua triste sina, uma solidão que nem mesmo as riquezas do reino conseguia curar. Sofia costumava observar o mundo ao redor através de um espelho mágico. Assim, ela viu seu pai conversar com seus conselheiros sobre um concurso que escolheria o mais corajoso varão que iria desposar sua filha. O coração da princesa apertou de apreensão.

— Quem será este homem que irá vencer este concurso? Meu destino é cruel! — ela sussurrava, envolvendo-se em um misto de tristeza e ansiedade.

Zé Barnabé seguia seu caminho pela estrada silenciosa quando ele se deparou com uma formiga que gritava por socorro, presa no cocô de cavalo.

— Por favor, me ajude! Estou presa aqui! — implorou a formiga, seus olhinhos brilhando com medo.

— Não se preocupe, formiguinha! Vou te tirar daí — respondeu Zé Barnabé, puxando-a para libertá-la. 

A formiga, aliviada, limpava-se e olhava Zé com gratidão.

— Obrigado, cavalheiro! Com quem eu tenho a honra de falar?

- Me chamo Zé Barnabé, um sitiante em viagem por este mundo de Deus...

- Sua bondade será recompensada. Em retribuição á sua atitude, quero te presentear com uma de minhas perninhas. 

A formiguinha puxou e arrancou uma de suas perninhas...

- Na hora do perigo, sopre-a e me chame. Estarei lá para o que for preciso!

Zé Barnabé sorriu, guardando a perninha com carinho e seguia em frente na sua jornada.

Logo mais a frente, ele se deparou com um lago seco onde um peixe dourado revirava-se em agonia na areia.

— Por favor, não me deixe morrer! — lamentou o peixe.

— Você vai viver! — assegurou Zé Barnabé, correndo até o rio e carregando-o em suas mãos. 

Assim que o colocou de volta na água, o peixe sorriu.

— Você é um bom homem. Em gratidão, te presenteio com uma de minhas escamas. Na hora do perigo, sopre-a e chame por mim. Eu estarei lá por você!

Zé Barnabé fez uma pausa para descansar e refletir. 

- Essa caminhada está cheia de surpresas. 

Porém, a natureza ainda lhe reservava mais surpresas. 

Após alguns quilômetros, ele avistou um urubu rei com a asa machucada, contorcendo-se de dor na beira da estrada.

— O que aconteceu com você, meu pobre pássaro? — perguntou Zé Barnabé, correndo até a ave.

— Um caçador me feriu. Não consigo voar! — lamentou o urubu.

Com um gesto de compaixão, Zé Barnabé ajustou a asa machucada que estava com a articulação fora do lugar.

— Obrigado, amigo! — disse o urubu. — Em retribuição ao seu gesto de compaixão, te dou uma de minhas penas. Soprando-a, na hora do perigo, me chame e voarei até você!

Com a pena, a escama e a perninha, Zé Barnabé seguiu em frente, enquanto Sofia o observava no espelho mágico...

— Este Zé Barnabé é um homem bom! Não conheço muitas pessoas assim na vida! — ela exclamava, sem conseguir desviar os olhos do reflexo dele.

Ao chegar à capital do reino, Zé Barnabé entrou em um bar e ouviu sobre um concurso incrível: uma competição para encontrar o noivo da princesa. Os mais ricos homens do reino já haviam se inscrito. No bar, o concurso era o comentário do momento.

O príncipe do reino vizinho, um rapaz malicioso e oportunista, já planejava as artimanhas que o levariam à vitória. Ao observar isto pelo espelho mágico, Sofia ficou com medo.

- Não posso me casar com este sujeito desonesto e cruel. Mas ele tem poder para manipular a competição e vencer. O que faço?

No mesmo instante, os olhos da princesa brilharam...

No balcão do bar, ainda incerto do que fazer na capital do reino, Zé Barnabé tomava um trago quando um mensageiro o cutucou as costas...

-Você se chama Zé Barnabé? - disse o mensageiro.

-Sim.

O mensageiro estendeu a mão e deu a Zé um bilhete com as seguintes palavras: "Se inscreva no concurso, vença e tenha seu destino em suas mãos..."

Zé não entendeu nada. Ao se virar, o mensageiro já havia partido.

-Me insrever no concurso? Mas como vencer os adversários? São ricos e eu um pobre miserável sem futuro...

Ficou pensando por um tempo até que respirou fundo, tomou o último gole, se levantou e tomou a direção do castelo...

-Não tenho nada a perder e meu pai me disse que a bondade tem recompensa, vamos ver...

A princesa, olhando tudo pelo espelho, sorriu de alegria.

Zé realizou a inscrição e no dia do início do concurso, estava lá ao lado dos demais concorrentes.

O arauto anunciou a tarefa: "Quem conseguir chegar ao topo da grande montanha, apanhar o ovo da grande águia prateada e regressar ao castelo, terá a mão da princesa em casamento.

O príncipe desonesto olhou Zé Barnabé de alto a baixo.

— Eu não posso perder para um plebeu! — riu ele, ordenando que seus capangas eliminassem de cara o tal de Zé Barnabé.

Dito e feito. Os concorrentes saíram cada um para seu lado e, na primeira curva da estrada, os capangas do príncipe pegaram Zé Barnabé e o amarraram no tronco de uma árvore.

Preso à árvore, Zé Barnabé sentiu que tudo estava perdido até que se lembrou da perninha da formiga que estava no bolso de seu casaco. Se contorcendo com esforço, Zé alcançou a perninha e a soprou dizendo: "Valei-me, formiguinha". Em minutos, um exército de formigas roeu as cordas. Zé estava livre!

Ao olhar para trás ele viu a formiga e fez uma aceno de agradecimento.

Sofia, olhando o espelho mágico, vibrou.

Mas o príncipe desonesto armou outra cilada, fazendo Zé Barnabé confundir o caminho e se perder na margem oposta de um grande rio. 

— Eu preciso atravessar, mas como?! — disse Zé Barnabé. 

De repente, se lembrou da escama... Soprando o presente, logo o peixe dourado surgiu do fundo do rio.

— Suba nas minhas costas, e eu te levarei! — disse o peixe.

Agradecido, Zé Barnabé atravessou o rio e seguiu em segurança. 

Finalmente, chegou ao topo da montanha mágica e encontrou o ovo, brilhando sob a luz do sol. Vagarosamente, se esgueirou por debaixo da águia mãe, apanhou o ovo e saiu sem acordar a grande e perigosa ave.

— Eu consegui! — ele exclamou.

Mas no momento em que se virou, viu os capangas do príncipe maligno cercando-o, prontos para atacar.

— Não deixe ele escapar! — gritou um deles.

Desesperado, Zé Barnabé lembrou-se da pena que o urubu lhe dera. Ele a soprou, e o urubu rei apareceu, fazendo um mergulho brilhante.

— Prenda-se em minhas garras, Zé! — disse o urubu.

Zé Barnabé agarrou-se com força. Com um bate de asas majestoso, o urubu voou alto, deixando os capangas perplexos lá embaixo.

Lá de cima, Zé Barnabé viu o castelo ao longe. 

— Estou indo, princesa Sofia! — ele gritou, sentindo uma emoção intensa.

No palácio, Zé Barnabé foi recebido com aplausos e a princesa, com um brilho nos olhos, aproximou-se dele.

— Eu torci por você todo o tempo! — declarou ela, emocionada.

— Eu fiz tudo isso para te encontrar — respondeu Zé Barnabé, seu coração acelerado.

Com a bênção do rei, eles se casaram sob a luz de mil estrelas, e juntos buscaram o velho pai e a querida Perigosa.

E assim, Zé Barnabé viveu feliz, sempre cercado de amor e gratidão, sabendo que a bondade e a coragem podem transformar a vida de qualquer um, não importando quão pobre ele possa ser. Zé viveu o resto de sua vida junto de Sofia, fazendo o bem para a população do reino.

Samuel marcou de cabeça

O futebol esteve presente na essência da minha vida dos 7 aos 17 anos, um amor que me moldou, que me fez mais forte e me ensinou a enfrentar desafios com bravura e um sorriso no rosto. Aqueles dez anos não foram apenas um passatempo; foram uma imersão em um mundo onde cada drible, cada gol e cada derrota eram lições de vida, construindo amizades e vínculos que transcenderam o campo. Entre risos e lágrimas, conheci o medo e a confiança, mas, acima de tudo, aprendi a valorizar a jornada.

Uma das maiores histórias que esse esporte me proporcionou foi a relação que formei com meu primo Samuel. Desde pequenos, éramos inseparáveis, filhos de famílias unidas pela paixão pelo jogo. A memória mais vívida que guardo dessa ligação foi um dia de domingo, em que nos encontramos frente a frente com o desafio mais audacioso de nossas vidas: a final do campeonato de futebol society da quadra do Gordinho, um evento lendário que pulsava no coração da região norte de Ribeirão Preto.

A quadra estava repleta, pulsando com gritos de apoio, baterias ressoando, e o ar estava carregado de uma mistura de ansiedade e expectativa. Assim que a partida começou, fomos pegos de surpresa — dois gols rápidos do adversário deram um golpe na nossa confiança. O sentimento de desespero parecia nos envolver, mas ainda não conhecíamos a mágica que estava prestes a acontecer.

Naquele momento crucial, com o nosso destino em jogo, o universo conspirou a favor da nossa conexão. Recebi a bola, e com um toque certeiro, cortei para o meio do campo. Com toda minha força e alma, bati de esquerda, uma trajetória direta ao ângulo. O grito de “gol” ecoou em nossos corações. Olhei para Samuel e vi a confirmação em seu olhar, um gesto que dizia: "Isso aí, primo, estamos juntos!".

Minutos depois, o goleiro adversário lançou a bola em minha direção. O tempo parecia ter parado. Dominei com precisão e, instantaneamente, percebi Samuel se movimentando à minha frente, braço levantado, pedindo a bola. Com um cruzamento perfeito, cobri o zagueiro e a bola encontrou sua cabeça, um momento em que o mundo parecia se alinhar perfeitamente. O gol do empate não era apenas um prêmio pela nossa perseverança, mas uma celebração de nossa ligação de sangue, de sonhos e companheirismo.

Apesar de termos perdido aquela final por 3 a 2, o que realmente importa é que aqueles dois momentos tomaram forma, esculpindo um lugar sagrado em nossas memórias. O jogo se transformou em um símbolo de nossa juventude, um refletor sobre como o futebol não era apenas um esporte, mas um forjador de emoções e laços que nos acompanhariam para sempre.

Naquele dia, no calor da quadra, senti a presença intensa do meu primo, e percebi que, juntos, enfrentávamos mais que adversários: estávamos batendo de frente com a vida. O futebol nos ensinou que, mesmo nas derrotas, existem vitórias que ecoam em nossas almas, entrelaçando nossos destinos, ligando-nos eternamente através das memórias de um simples jogo.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Amor verdadeiro...

Milhares de pessoas passam a vida imersas em sonhos, idealizando o amor verdadeiro, aquele sentimento profundo que aquece a alma, mas que muitas vezes se disfarça sob a chama passageira de uma paixão efêmera. Por muito tempo, eu fui uma dessas pessoas sonhadoras, buscando aquele amor que promete eternidade, que é mais do que fogo na palha. E, de certa forma, eu o encontrei. Ou melhor, eu o senti vibrar em meu coração, fazendo ecoar uma certeza quase mágica.

Sei distinguir o amor verdadeiro de todas as outras experiências que já vivi; conheço sua essência e seu peso. Dediquei anos dessa caminhada ao amor que, em minha mente, se apresentava como definitivo. Com todas as minhas forças, fiz dele meu propósito, entreguei-me sem reservas, acreditando que, ao desempenhar meu papel, ele floresceria e se tornaria a realidade que almejava.

Contudo, a vida tem um jeito peculiar de nos ensinar sobre as nuances do amor. A verdade, que às vezes é difícil de engolir, é que eu senti o amor verdadeiro, mas não tive a oportunidade de vivê-lo plenamente. Senti sua profundidade, sua beleza, mas ele se mantinha distante, como um sonho que não se concretiza. Se alguém me perguntar, hoje, o que eu realmente penso disso, a resposta se dissolve em incertezas: não sei ao certo.

É reconfortante saber que o amor verdadeiro existe, um sentimento tão poderoso, tão raro. Mas, ao mesmo tempo, é doloroso perceber que ele escolheu não ficar comigo, que seus caminhos seguiram em outra direção. Essa ambiguidade do saber e do sentir me deixa em um turbilhão de emoções. O amor verdadeiro pode ser uma luz que ilumina, mas também uma sombra que nos deixa na penumbra, lembrando que, às vezes, o que mais desejamos está ao nosso alcance, mas não da forma que imaginamos.

Pôr do Sol na varanda

Acordou bem cedo, como era seu costume. Preparou o café e saboreou lentamente a bebida, fixando o olhar na parede da sala, perdido em seus pensamentos. Naquela manhã, demorou-se mais do que o habitual; uma sensação de melancolia parecia prendê-lo ali. Após alguns minutos, com um esforço visível, saiu para cuidar dos animais, sendo saudado pelo canto do Bem-Te-Vi. Sorriu, como sempre, e devolveu o cumprimento, mas notou que o pássaro parecia também carregar um ar de tristeza.

Após cumprir suas tarefas domésticas, lavou o rosto, bebeu da água da moringa e seguiu pela estrada, ciente de que ainda tinha muito a fazer. No entanto, aquela manhã carregava algo de diferente, uma inquietação no ar. Foi então que um perfume conhecido invadiu suas lembranças, um aroma do passado que ele não conseguia identificar a origem. Nenhuma flor daquela trilha tinha aquele cheiro especial. Imediatamente, lembrou-se de um sorriso, vislumbrou um leve movimento de cabelos e uma forma de andar. O coração apertou junto com seus passos, e ele acelerou o ritmo na tentativa de se afastar daquela lembrança.

Mergulhou-se no trabalho, tentando se distrair. Ao voltar para casa, exausto, tomou um banho gelado e serviu-se de um trago de cana. Depois, acendeu um cigarro de palha e se acomodou na varanda. Observou o pôr do sol em sua cadeira de balanço, ouvindo o “boa noite” do seu amigo Bem-Te-Vi. À medida que a noite se instalava, a penumbra encobriu uma lágrima solitária que escorregou por seu rosto. Ali, em seu cantinho isolado, o que lhe restava? Apenas o trabalho, o Bem-Te-Vi e uma profunda saudade...

quinta-feira, 2 de abril de 2026

A unha do tamanduá

Era uma época em que a vida pulsava nas fazendas, onde as caçadas e pescarias eram o coração da existência, e as conversas à luz do candeeiro aqueciam as noites após um dia de trabalho. Nessa agitação, vivia uma figura excepcional: Zé Colodino.

Eu, ainda um menino, conheci-o numa tarde ensolarada, levado por meu avô. Nessa fase, Zé já residia na cidade, aposentado das lidas do campo, em uma casa que exibia uma varanda fresca, rodeada por um quintal extenso, perto da antiga estação. Apesar de nossas interações serem poucas, talvez apenas uma dúzia de encontros, as histórias que ele contava na varanda marcaram minha infância indelével.

Uma dessas histórias, em particular, tornou-se um símbolo de coragem e aventura em minha memória. 

As caçadas na mata do Capão eram o passatempo mais cobiçado das tardes de domingo. Não se tratava de caçadas ordinárias; ali podia-se caçar de tudo, desde um simples tatu-peba até um bando de codornas, um cateto e, quem sabe, até uma onça. É verdade que onças, de fato, nunca apareceram, exceto por uma ou outra jaguatirica miúda, mas a ideia de enfrentar uma onça sempre pairava no ar.

Naquela tarde, Zé Colodino armou-se de coragem, acompanhado de seu compadre e dos fiéis cães de caça: Perigosa, uma cadela desenvolvida por bravura, e Corisco, um vira-lata preto, astuto e com um faro inigualável. Com a garrucha de cano duplo e o facão guarani pendurados ao cinto, Zé Colodino liderou o grupo na travessia da trilha.

A mata do Capão, vasta e inexplorada, já assustava à luz do dia; à noite, era um mistério profundo, habitado por perigos visíveis e invisíveis. O medo da onça pairava sobre todos, embora poucos tivessem coragem de mencioná-lo em voz alta. O compadre, de face pálida e olhos arregalados, revelava que aquela era sua primeira vez e a aventura que o aguardava ainda estava no horizonte.

“Vamos ‘bordejar’ essa mata, meninos!”, exclamou Zé, enquanto assobiava um tom de esperança. A caçada começava na transição do dia para a noite, e os sons da natureza cresciam ao redor deles. Corisco parou abruptamente, orelhas em pé.

— Shhh! — Zé fez um gesto para que todos se agachassem, inclusive Perigosa, que se aproximou dele.

O compadre, com o coração acelerado, murmurava baixinho: “Que seja um tatu… Por favor, não uma onça.” 

E então, os olhos de Zé brilharam. — “É um casal de catetos! Vai, Perigosa!”

Com um salto poderoso, os catetos dispararam mato adentro, seguidos pela cadela e Corisco. Zé Colodino mergulhou na mata com um fervor impressionante, e o compadre, tomado pelo espírito da aventura, não ficou para trás. 

A escuridão começou a tomar conta da floresta, mas, seguindo os latidos frenéticos dos cachorros, o compadre encontrou o local onde Perigosa guardava o cateto abatido. A carne e a banha da semana estavam garantidas, mas Zé… onde estava Zé Colodino?

Um estrondo cortou o ar, o tiro da garrucha reverberando a cerca de cinquenta metros de distância. Com o coração no peito, o compadre lutou através da vegetação até que ouviu gemidos agonizantes. — “Ai, ai…”

Quando finalmente encontrou Zé, ele estava preso em uma moita de taboca, o corpo quase que todo enredado naquelas folhas traiçoeiras.

— “Que foi, Zé?” — perguntou o compadre, com uma voz trêmula.

— “Me ajuda, homem!” — a voz de Zé soava desesperada.

Com habilidade e um punhal afiado, o compadre cortou as amarras de taboca que prenderam Zé. Mesmo ensanguentado, não havia tempo para palavras; pegaram o cateto e retornaram.

Na sala de casa, depois de tratar da ferida nas costas, Zé se levantou, um brilho travesso nos olhos. — “Olhem isso!” Ele exibiu a unha afiada do tamanduá-bandeira, que quase lhe custara a vida.

— “O que aconteceu?”, perguntou um dos presentes, admirado.

— “Eu não vi o tamanduá! Quando entrei na mata, mudei de direção e caí na toca da besta! O bicho me abraçou, e só não fui pro beleléu porque a unha grudou na taboca...”

Todos riram, menos eu. O silêncio se instalou, enquanto absorvia a intensidade da história. Zé lançou um olhar cúmplice para mim e para meu avô. Ambos riram de forma descontraída, e Zé se levantou, retornando à varanda. Ele estendeu a mão na minha direção, revelando a unha do tamanduá.

— “Quer ver mais?”

Nem me recordo da minha resposta, mas ao tirar a camisa, vi a marca na própria pele, na altura do pulmão.

No caminho de volta para casa, a conversa fluiu como um rio tranquilo; meu avô parecia perdido em pensamentos, mas eu sabia que a história do Zé Colodino, a unha do tamanduá e aquela marca nas costas me acompanhariam para sempre, como um eco das aventuras que moldaram minha infância.

O dia que acabou e eu me despedi ( Tomaz)

Você sabe qual foi o período mais feliz da sua vida? Eu sei, porque ecoa em mim como uma canção suave que se recusa a se apagar. Foram os meus anos de ensino médio no Tomaz Alberto, aqueles gloriosos anos dourados de 1990, 1991 e 1992. Dias leves como plumas, em que as risadas se misturavam ao grito dos meninos jogando bola no pátio e os sonhos eram tão palpáveis que podíamos tocá-los com as pontas dos dedos.

Cada canto daquela escola guardava uma história, um segredo sussurrado entre os corredores. A quadra com sua grande cúpula, majestosamente erguida, era o coração pulsante do lugar, onde aprendíamos a vencer e a perder, mas, principalmente, a nos unir em torno de um mesmo ideal. A biblioteca, um templo de conhecimento, me acolheu nos braços da literatura, revelando-me mundos desconhecidos e instigando meu amor pelas palavras.

Ah, os corredores! O cenário das nossas paqueras disfarçadas, onde o olhar penetrante de um amor não correspondido se cruzava com a cumplicidade de um sorriso. Lembro-me das tardes em que nos aventurávamos a fazer teatro, a criarmos um programa de rádio que ecoava a nossa voz, a organizarmos campeonatos que colocavam em prova não só a habilidade, mas a amizade e a rivalidade de uma juventude vibrante. Encanávamos aulas, sim, mas era a liberdade do conhecimento que buscávamos, sempre envolvidos em discussões sobre o futuro, sentados em roda, compartilhando nossos sonhos.

Ali, entre as risadas e a expectativa do porvir, semicerrados os olhos, vislumbramos médicos, engenheiros e professores em formação. E eu, inspirado pelo professor Gabarra, fiz a minha escolha: ser químico e, um dia, professor de química, como ele. Naquela época, a vida parecia um livro em branco, pronto para ser escrito com as mais coloridas tintas da esperança.

Mas tudo que é bom chega ao fim, e eu me recordo bem do último dia. Dezembro de 1992. Caminhei sozinho pelo prédio, meu coração pesado, mas repleto de memórias. A despedida estava ali, nas paredes que tão bem conhecia, nos risos que ecoavam como sussurros distantes. A sala de aula foi o último lugar. Quando o sinal tocou, todos se levantaram, como se aquela não fosse uma despedida, mas apenas um interlúdio na canção da vida.

Eu fiquei por último, sentado, observando cada detalhe. Era a última vez que veria aqueles rostos, aquelas mesas, aquele quadro negro que tinha sido palco de tantas histórias. Um pedaço de mim se despedia, mas não sem resistência.

Despertei com o grito do Evandro: “Oh, idiota! Vai ficar aí sentado? Vamos, o pessoal tá esperando". E, como um despertar do sonho, saímos todos juntos, subindo a rua em direção ao bar da esquina. Pedi uma Coca-Cola e saboreei um salgado, repetindo a rotina dos últimos três anos. Mas, ao mesmo tempo, aquela também era a última vez. O último retrato da simplicidade de uma juventude que, como eu, buscava seu lugar no mundo.

É engraçado como, ao olhar para trás, vejo que aquele período, com todas as suas incertezas e alegrias, continua vivo em mim. Os anos dourados de Tomaz Alberto, moldados em risadas, sonhos e despedidas, são cravados na memória como um tesouro que guardarei para sempre.

O dia que acabou e eu nem percebi (Musa)

Nós nunca sabemos se é pela última vez. Essa verdade simples e profunda ecoa em nossas vidas de maneiras que muitas vezes não conseguimos perceber. Muitas vezes, dizemos adeus sem saber que aquele será o último olhar, o último sorriso, a última risada compartilhada. 

Lembro-me do final de 1989, um tempo em que minha infância se desdobrava em algumas das memórias mais queridas da minha vida. Foi naquele período que ouvi, pela última vez, o sinal que anunciava a hora da saída da escola Musa, onde passei oito anos mergulhado em descobertas e aprendizagens. Não tenho recordações claras do último dia, mas cada instante vivido ali continua a vibrar em mim, como as cordas de uma guitarra tocando uma melodia eterna.

O Musa era mais do que uma instituição; era um lar, um refúgio onde aprendi a me defender nas disputas de ideias e nos jogos de tabuleiro, a entender o que significa ter um amigo e estar disposto a ser um. Foi na sala de aula que os professores inesquecíveis me ensinaram a sonhar, a namorar, a superar as dificuldades – um verdadeiro campo de batalha onde cada pequeno triunfo se tornava uma vitória. 

As tardes eram preenchidas por aventuras nas quadras, por campeonato de futebol que o seu Cláudio organizava com tanto entusiasmo, pela cantina do seu Viana, onde os lanches saborosos e os risos se misturavam. As broncas de seu Lair eram quase uma cerimônia de passagem; eu via naquela rigidez uma preocupação genuína, um desejo de nos ver crescer. E como esquecer o olhar penetrante da dona Guimar, a inspetora que nos acompanhava com a firmeza de uma mãe? Sua presença mantinha a ordem e o respeito num ambiente repleto de sonhos e inquietações adolescentes.

Entrei no Musa como uma criança de sete anos, e saí um rapaz de quatorze, transbordando memórias que criaram a base do que eu sou hoje. Não me recordo exatamente de como foi aquela última tarde; talvez cheguei com minha mochila gasta, trocando ideias com amigos ao sentar na mureta do pátio como sempre fazíamos, ou chutando uma bola despreocupadamente, como se o tempo não tivesse pressa. 

E então, com o coração apertado, atravessei o portão pela última vez. Sabia que deixava para trás não apenas um espaço físico, mas uma parte de mim, uma fase da vida que se despedia, carregando na mochila as risadas, os sonhos e as lições, como um tesouro inestimável. 

Nunca soubemos que era a última vez. Mas, numa dessas despedidas silenciosas, aprendemos que o que realmente importa são as experiências vividas, os vínculos formados e o amor que se perpetua na memória. O Musa, minha eterna segunda casa, vive em mim. Ele será sempre um pedaço do meu coração.

domingo, 29 de março de 2026

A viagem do meu tio Mané

Ah, meu tio Mané! O eterno promissor de aventuras que nunca chegou a cumprir. Se tivesse uma medalha para o atraso, ele seria o campeão mundial, sem sombras de dúvida! Irmão da minha mãe e pai dos meus primos Analu e Samuel, tio Mané era a definição perfeita de diversão: sempre tinha uma piada pronta, um sorriso largo e histórias que mais pareciam roteiros de cinema.

Era engraçado como o tempo andava de forma diferente quando ele estava por perto. Quando batia à porta e se despedia, soltava a frase mágica: "Semana que vem passo aqui de novo." E olha, essa "semana que vem" era uma entidade tão real quanto um unicórnio em Hollywood. A gente esperava, contava os dias, e, quando menos esperávamos, cinco anos já haviam passado! Se tivéssemos uma máquina do tempo, provavelmente poderíamos ter encontrado o Mané varrendo a casa dele, ainda esperando a hora certa de aparecer.

E sempre foi assim. Conta a minha mãe que certa feita, nos idos de 1960, ele, menino, havia prometido à diretora da escola que tocaria o hino nacional num cavaquinho no dia da Independência. O problema é que ele não sabia tocar nem cavaquinho nem qualquer outro instrumento. O resultado foi que no dia a diretora da escola mandou buscar o "cavaquinista" em casa e o "artista" havia fugido, só voltando para casa no final do dia com o sempre presente sorriso no rosto.

Mas teve um episódio que desbancava todos os outros: o dia em que ele saiu de casa dizendo que ia ao mercado e, pasmem, só voltou três anos depois! Ele se perdeu em uma aventura digna de um filme de Hollywood, aceitando um trabalho de vendedor de sapatos no meio do caminho, e, como se não bastasse, foi parar em um garimpo no Pará! E ainda voltou, claro, com um sorriso no rosto e um presentinho (que na verdade era uma sandália de dedo) para os meninos. Com esse histórico, é até compreensível que nós, crianças, começássemos a achar que o homem tinha uma conexão mágica com o tempo.

Corria o ano de 1986, quando ele, do nada, prometeu a nós uma viagem a Santos! "Este ano vamos para Santos, de perua!", anunciou com toda a pompa. A partir daí, foi um festival de promessas e sonhos. "Quando chegarmos lá, vamos à praia e depois tomar um caldo de cana com pastel!" A gente não se cansava de fantasiar sobre aquela viagem. Imaginar o caminho repleto de risadas na perua, as brincadeiras, e a nossa política secreta de comilanças no mar.

Claro que a viagem nunca aconteceu. As promessas foram se estendendo durante uns três anos e, aos poucos, fui percebendo que as promessas do tio Mané não eram bem prazos e mais sim uma forma de sonhar — e isso, por si só, já era uma grande aventura. Eu aprendi que há pessoas que enxergam a vida pelo prisma do sonho, e nisso meu tio foi um mestre.

Tio Mané se foi em 2016, mas deixou um legado imenso: a prática do sonhar. Um dia nos reuniremos na praia de Santos, com caldo de cana e pastel em mãos, e quem sabe ele não apareça para dar risada e contar como se perdeu mais uma vez pelo caminho. Obrigado, tio, pelas promessas e pela magia de acreditar que a vida é cheia de possibilidades. Até breve, na praia do tempo!

sexta-feira, 27 de março de 2026

O bilhete esquecido num livro

 A tarde estava pesada e o céu estava encoberto por nuvens cinzentas quando recebi a mensagem através do Facebook. "Você é o Ricardo que estudou no Tomaz Alberto em Ribeirão Preto nos anos 90?" A dúvida inicial logo se dissolveu em curiosidade. Sim, sou eu, respondi rapidamente. A resposta veio quase que instantaneamente: "Que bom! Tenho uma surpresa para você. Vamos nos encontrar na Biblioteca Pública e Comunitária."

Naquela tarde, enquanto caminhava pelas ruas, uma sensação estranha me acompanhava. O que poderia ser essa surpresa? Ao chegar à biblioteca, a primeira coisa que notei foi o cheiro de papel envelhecido, um aroma que me transportava de volta para tempos mais simples. Seus corredores eram conhecidos, mas o velho espaço tinha um ar de mistério quase palpável.

"Você é o Ricardo?" Uma senhora idosa me abordou, seu rosto iluminado por um sorriso nostálgico. 

"Sim, sou eu," respondi. "Você me chamou aqui?"

"Sim, querido," ela disse, com uma voz suave. "Venha comigo."

Ela me levou a uma estante no fundo da biblioteca, de onde pegou um enorme dicionário com um esforço visível. A capa estava gasta, e o livro parecia ter mais histórias do que eu poderia imaginar. Com delicadeza, ela abriu o livro quase ao meio.

"Olhe," disse ela, movendo uma página e revelando um pequeno papel que estava cuidadosamente escondido.

Demorou um minuto até que eu pudesse processar o que via. Era o bilhete que nós, eu, Evandro, Kenedi e Paulão, havíamos escrito trinta anos atrás e que havíamos escondido em um daqueles livros grossos e que ninguém abre numa das tardes em que fazíamos algum trabalho de pesquisa na biblioteca pública.

"Não posso acreditar!" exclamei, pegando o bilhete em mãos trêmulas. "Estávamos tão jovens naquela época...".

"Tem as assinaturas com os nomes de vocês", disse a senhora. Busquei informações na escola e cheguei até você.

Com um olhar bondoso, a senhora se afastou, permitindo que eu examinasse o que havia escrito. As palavras de cada um estavam ali, aninhadas numa caligrafia juvenil que parecia tão distante e ao mesmo tempo tão íntima. O meu próprio resumo me pegou de surpresa:

"Quem abrir este bilhete, saiba que aqui é o Ricardo Jimenez, e escrevo este bilhete com a esperança de um futuro feliz, tendo orgulho do que faço e fiz."

Naquele momento, fui golpeado por uma onda de emoções avassaladoras. Era como se tivesse recebido uma mensagem de um eu mesmo há muito esquecido. O passado e o presente se fundiram, e eu me senti no centro de uma máquina do tempo.

"Você está bem?" a senhora perguntou suavemente, percebendo a lágrima que escorreu pelo meu rosto.

"Eu... eu não sei," respondi, com a voz falhada, a beleza e a tragédia dos meus 50 anos se misturando em uma só lembrança.

"Esse bilhete carrega memórias," ela disse. "Ele é a prova de que o tempo pode ser um círculo, e não uma linha. Você ainda pode cumprir o desejo daquele garoto."

Saí da biblioteca segurando o bilhete com firmeza, as lágrimas agora transbordando livremente. As palavras que eu havia escrito aos 17 anos ecoavam em minha mente, e me perguntei: eu cumpri o desejo daquele jovem? Será que, ao longo das últimas três décadas, fiz jus a suas esperanças e sonhos? 

Com o bilhete apertado contra o coração, deixei a biblioteca. A chuva começou a cair, mas, em vez de tristeza, eu sentia uma estranha alegria. Estava prestes a embarcar em uma jornada de autodescoberta, guiado pelo eco do meu eu mais jovem.

quarta-feira, 25 de março de 2026

De farda olhando o futuro

Você já passou uma madrugada acordado? As razões para isso são infinidade, pois a insônia pode vir vestida de ansiedade, solidão ou, por que não, de esperança. Eu tenho minhas madrugadas guardadas na memória, mas aquelas do longínquo 1994 têm um lugar especial no meu coração.

Foi nesse ano que prestei serviço militar em Ribeirão Preto. Às vezes, eu me via de pé, em plantões de 24 horas, na guarita do quartel. As noites eram frias, a farda ajustada ao corpo e o som do coturno ecoando em meio ao silêncio que parecia abraçar o mundo. Eu tinha apenas 19 anos e, diante daquela fronteira tão distante chamada futuro, uma mistura de curiosidade e apreensão me dominava.

Meus pensamentos se desenrolavam como um filme em câmera lenta. Era um momento único, onde, de pé, eu construía sonhos e projetos. Eu sonhava com amores que ainda estavam por vir, visualizava cenários que aguardavam pela minha chegada. O que seria da minha vida? Como eu imaginava que as coisas se desenvolveriam? A presença do jovem que eu era, encolhido naquelas horas intermináveis, trazia uma intensidade peculiar àquelas noites.

Nunca, em um vislumbre da minha ingenuidade juvenil, eu poderia imaginar que um dia chegaria aos 50 anos e escreveria sobre aquele jovem fardado, sonhador e solitário. Se eu pudesse, por um instante, voltar no tempo e me colocar ali, ao lado do muro da guarita, em uma das muitas madrugadas silenciosas, o que eu diria a ele?

É complicado encontrar as palavras certas. Eu me vejo naquele rapaz, repleto de esperanças e dúvidas, e, de certa forma, é como se estivéssemos em diálogo. “Obrigado”, eu diria. “Continue a sonhar, persista naquilo que arde dentro de você, pois é essa chama que vai guiar seus passos por onde quer que vá. Tenho orgulho de você, mesmo quando as incertezas pesam no seu coração.”

A verdade é que aquele jovem não sabia que os sonhos que fabricou nas madrugadas frias moldariam a trajetória da sua vida de maneiras que ele nunca poderia conceber. Ele, invisivelmente, se tornou o arquiteto de meu presente, construindo alicerces que sustentariam os anos vindouros. Por isso, cada pensamento disfarçado no silêncio daquela guarita reverberou como um mantra de autodescoberta, e eu sou grato por cada um deles.

Hoje, ao lembrar daquelas noites, percebo a beleza que há em sonhar, mesmo quando o futuro parece nebuloso. Porque por trás de cada amanhecer, existe o eco das promessas feitas em meio à solidão. E, assim como naquele tempo, sigo sonhando, um passo de cada vez.


terça-feira, 17 de março de 2026

O Bode no Quartel

 Ah, 1994! Um ano que ficou gravado na minha memória como um verdadeiro desfile de aventuras, sustos e muita risada. Naquela época, eu estava alistado no Tiro de Guerra, onde acordar antes do sol surgir e vestir a farda se tornou uma rotina que eu nunca pensei que fosse tão… interessante. E não, não estou falando de um emocionante militarismo, mas sim de passar os sábados e domingos em um quartel isolado em Ribeirão Preto, onde o único "combate" era a luta contra o tédio.

Certa vez, durante um desses intermináveis plantões, decidimos que contar histórias era a solução perfeita para amenizar a monotonia. E assim, nos reunimos no pátio após o jantar, cada um mais disposto do que o outro a desvendar os mistérios da alma humana… ou simplesmente a inventar um bom terror. O Recruta Sá, com seu olhar brilhante e voz de narrador de rádio, começou a falar sobre fantasmas e vampiros, transformando o nosso lamento noturno em um verdadeiro espetáculo de terror. Depois de algumas horas, nossa conversa se dissipou e cada um voltou aos seus afazeres, sem saber que o verdadeiro susto ainda estava por vir.

Por volta das 2 da manhã, o cenário pacato do quartel foi abruptamente quebrado pelo berreiro do Recruta Oliveira, que entrou no dormitório como um furacão. “Vi o diabo! O diabo está lá fora!” – gritou, e em um instante, o quartel se transformou em um quadrado de tensão. Aqueles olhos arregalados dele poderiam fazer qualquer um acreditar que estávamos diante de uma entidade sobrenatural. 

Todos trocamos olhares e o medo começou a contagiar o grupo. Ficamos ali, plantados, sem coragem de enfrentar “o diabo”. Mas Sá, com seu espírito audacioso, pegou seu fuzil com a bravura de um verdadeiro herói (ou seria um grande idiota?) e decidiu que era hora de encarar o que quer que estivesse assombrando Oliveira. Saímos atrás dele, um grupo de guerreiros medrosos, cada um a uma distância segura.

Quando finalmente chegamos ao fundo do quartel, o silêncio da noite parecia quase palpável, e nossos corações batiam como tambores de guerra. Então, do fundo da escuridão, Sá bradou: “Achei o diabo!” E por alguns segundos, o mundo parou. O que será que ele encontrou? Um espírito maligno? Um fantasma sanguinário?

Quando nos aproximamos, porém, a verdade nos atingiu como um balde de água fria: o “diabo” do Oliveira não era nada mais do que um bode enorme, daqueles que vagam livremente em sítios e que aparentemente achou que nosso quartel era um excelente lugar para fazer um lanche de grama. O olhar de horror de Oliveira se transformou em alívio, seguido de uma onda geral de gargalhadas. O bode, indiferente ao caos que causara, continuava ali, pastando serenamente.

Depois de expulsarmos o bode e voltarmos à rotina do quartel, sabíamos que aquela história se tornaria uma lenda. E assim foi. Até hoje, décadas depois, as novas gerações no quartel ouvem a história do “diabo” que era, na verdade, um bode vagabundo, arrancando risadas e desafiando outros recrutas a enfrentar suas próprias sombras. Afinal, quem diria que um simples animal poderia ser o ingrediente essencial de uma amizade forjada na loucura e no riso? Ah, a vida de soldado nunca foi tão divertida!

domingo, 8 de março de 2026

As famosas balas de mel

O passado, às vezes, se revela como uma brisa suave no nosso coração, trazendo à tona aromas, sabores e emoções que estavam adormecidos. É assim que me sinto quando fecho os olhos e sou transportado para a casa do meu avô Ricardo, um refúgio mágico que abrigou nossa família nas tardes mais ensolaradas e nas noites mais estreladas. 

Meu avô era um contador de histórias magistral. Ele se sentava em sua cadeira de balanço, e todos nos reuníamos em volta, como se fôssemos folhas em torno do tronco de uma árvore, absorvendo sua sabedoria e encantamento. O tempo lá corria de forma diferente, as horas se misturavam em risadas e suspiros, e a presença dele se tornava eterna, mesmo quando a casa real, com seu corpo e voz, esteve conosco por apenas uma década.

Nessas memórias eternizadas, aprendi a cultivar a terra com as mãos sujas, a me perder nos segredos que as plantas medicinais escondiam, a pescar nas águas calmas, a tecer tarrafas sob a orientação de um olhar sábio e a jogar malha com a família, rindo e celebrando o simples. E, claro, as histórias de Zé Barnabé, as mais emocionantes e fantásticas, que ainda ecoam em minha mente e aquecem meu coração.

Mas, neste texto, quero falar das balas de mel. Sim, aquelas balas que meu avô comprava em quantidade generosa, como se fossem o ingrediente secreto para adoçar nossas histórias. Cada vez que ele distribuía uma, um brilho nos olhos de todos se acendia, uma festa de alegria. Menos em mim. Eu nunca gostei das balas de mel. Era um gesto de amor que eu aceitava, mas que, nas entrelinhas do meu ser, era mais uma diplomacia do que um verdadeiro deleite. E assim, em um pequeno conluio, sempre passava a minha bala para algum primo sorridente, como se estivesse escondendo um segredo precioso.

Não sei se meu avô um dia desconfiou dessa minha preferência disfarçada, mas, se pudesse lhe mandar uma mensagem, diria: “Vô, hoje, sinto saudades até das balas de mel.” Sinto falta do seu riso ao distribuí-las, do seu olhar ao relatar mais uma história. E, de alguma forma mágica, percebo que aquelas balas de mel, que nunca adoçaram minha boca, se tornaram uma metáfora para o amor que transbordava da sua presença. 

Agora, nesse espaço que ele deixou, percebo que cada lembrança, cada história, cada bala de mel tem seu lugar no meu coração. A casa do meu avô, com sua energia, seus ensinamentos e suas peculiaridades, vive eternamente em mim. E meu amor por ele, diferente de qualquer bala de mel, é intenso e incondicional. É doce, como o mel, mas tem o sabor da saudade que nunca se apaga.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

A primeira vez que falei em público

Era final do ano 2000, e enquanto todos estavam ocupados se preocupando com o Y2K, eu estava me aventurando na política. Sim, porque você pode não ter medo do bug do milênio, mas imagine a pressão de falar em público e ainda por cima representar o Partido Comunista! 

Naquele dia, a ocasião era a inauguração do comitê de um partido aliado em Ribeirão Preto. Ao chegar lá, me deparei com uma plateia abarrotada de políticos de todas as idades, incluindo um ex-prefeito que parecia ter saído de um filme dos anos 70. Eu, por outro lado, estava mais nervoso que um gato em um canil.

Quando o cerimonialista me avistou, não deu nem tempo de fazer um rodopio e fugir (quem diria que "desculpa, fui pegar água" não funcionaria?). Ele me pegou pelo braço e me arrastou até a frente, junto com outros oradores. Minhas pernas pareciam gelatina, e o coração batia no ritmo de uma escola de samba.

Aí foi meu momento. Peguei o microfone, e com aquele fervor de quem vai salvar o mundo, comecei: "Boa noite...". Olhei para a plateia. Eles estavam tão atentos que eu me senti como uma estrela de Hollywood fazendo sua estreia. Fiz meus agradecimentos e fiz questão de parabenizar o tal partido pela nova sede. Aí, no grande clímax da minha eloquência, com um grande sorriso, pronunciei: "Desejo toda sorte ao PSB!" E entreguei o microfone como se tivesse acabado de ganhar um Grammy.

Só depois percebi que o partido não era PSB, mas PPS! Sim, eu havia misturado as siglas e ninguém, absolutamente NINGUÉM, na plateia fez menção de corrigir! Queria entrar numa caverna e nunca mais sair. Fiquei com a sensação de ser o novo meme do evento. Até hoje, quando alguém menciona o PSB, sinto um frio na barriga como se estivesse prestes a subir no palco de novo.

Ainda bem que, entre políticos, o que não falta é criatividade para fingir que tudo está bem. E assim, em meio a olhares cúmplices e risadinhas internas, eu segui, um pouco mais maduro e um bocado mais tímido na arte da oratória (e, com certeza, com um manual de siglas na mão). E vale lembrar: se um dia você for falar em público, verifique sempre o que está escrito na porta antes de entrar!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Nossa maior vitória

Era uma vez, em 1992, numa época em que o cabelo bagunçado e a calça de baggy eram sinônimo de estilo, estávamos nós, os gladiadores das quadras, no nosso glorioso terceiro ano do ensino médio. A vida era uma montanha-russa de aulas chatas, boladas na escola e sonhos de ser jogador de futebol, astronauta ou, quem sabe, o novo rockstar. Ah, aquela doce mistura de desespero juvenil e esperança!

E foi assim, nesse espírito de aventura e um pouquinho de desprezo pelas consequências, que decidimos nos inscrever para o interclasse. Ah, a esperança de ser campeões! Nossa equipe era uma verdadeira salada de talentos e... sem talentos. Tínhamos o nosso campeão, Kenede, um goleiro que poderia enfrentar qualquer ataque com apenas uma mão (e isso se ele estivesse distraído). Depois, tinha eu, mais ou menos habilidoso (pelo menos, não perdi todos os dribles), e aí vinha o nosso "Magu, o Mago". O Magu era uma lenda em sua própria mente, mas por conta dos óculos, ele preferia jogá-los de lado para que o mundo se tornasse uma grande névoa. Resultado? Ele via vultos e distribuía pontapés como se fossem confetes numa festa. 

Agora, adivinha como foram os preparativos? Uma verdadeira expressão de otimismo! E lá fomos nós encarar o time favorito do campeonato, que, por acaso, já estava com a taça na mão antes mesmo do apito inicial. O jogo começou e, contra todas as possibilidades, eu fiz o primeiro gol. Um milagre! E logo depois, lancei uma assistência perfeita para o Paulão, que, apesar de parecer um pouco um tamanduá na hora de cabecear, conseguiu marcar! O placar marcava 2 a 0 para nós e a torcida começou a pensar que tinha caído em um universo alternativo.

Foi quando me aproximei do nosso paredão, Kenede, e fiz a proposta do século: “Se eu marcar o atacante deles, você pega todos os outros chutes que vierem?” Ele olhou pra mim como quem visualizava um futuro cheio de glórias e respondeu: “Deixa comigo!” Ali, naquele momento, formamos uma dupla imbatível. Eu corria atrás do atacante igual um cãozinho atrás de um carro, enquanto o Kenede defendeu bola como se sua vida dependesse disso. O pobre atacante via suas tentativas frustradas e a cada defesa do Kenede, ele parecia se perguntar se tinha sido abduzido por extra-terrestres tão habilidosos.

Lembro de um momento em que a bola, como uma artista rebelde, fez um show maluco: bateu em uma trave, depois na outra, dançou em cima da linha e, no final, decidiu ir aos braços do Kenede, que a segurou como se fosse um troféu. E ali estava ele, o gigante que nem sabia que jogava com olhos vendados!

Fim de jogo! Vitória! E mesmo que os favoritos tenham seguido em frente e ganhado o campeonato, nós éramos os verdadeiros campeões do nosso próprio mundo. Até hoje, quando nos encontramos na rua, a lembrança daquele jogo mágico nos faz rir até a barriga doer. Afinal, naquele dia, ganhamos muito mais do que um jogo; ganhamos dignidade e uma história que nunca iremos esquecer. Magu, o Mago, e o nosso espírito guerrilheiro nunca deixaram de nos acompanhar. Que época, hein?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

O dia que conheci Agatha Christie

Era o ano de 1990, um tempo em que a vida se desenrolava como um grande mistério ainda por desvendar. Eu estava no primeiro ano do ensino médio, mais precisamente na escola Tomaz Alberto, um lugar onde jovens de toda a cidade se encontravam e onde as nuances da vida começavam a se ampliar diante de mim. Na escola anterior, um pequeno colégio de bairro, meus dias eram preenchidos por partidas de futebol e risadas no pátio. As conversas eram sempre as mesmas, as opiniões restritas e a visão de mundo limitada. Mas o Tomaz Alberto prometia algo diferente, e eu mal sabia quão transformadora seria essa mudança.

Certa tarde, já lá pelo meio do ano letivo, um colega de classe que se destacava pela sua maneira peculiar de ser, Kenede, me lançou uma pergunta que fariam daquelas palavras um divisor de águas em minha vida: “Você conhece a biblioteca da escola?” Eu, pego de surpresa, respondi com um tímido “não”. A expressão dele se alterou, como se eu tivesse cometido uma grande falta. “Estamos no meio do ano e você nunca entrou na biblioteca da escola?” Aquelas palavras soaram como um eco distante, relembrando-me de um passado em que a biblioteca era apenas um local de obrigações escolares.

Um misto de curiosidade e nervosismo me fez seguir Kenede quando ele me convidou: “Vem comigo”. Foi assim que, pela primeira vez, cruzei o limiar de um lugar desconhecido. Ao abrir a porta, fui recebido por um aroma inconfundível, aquele cheiro que só os livros têm. Estantes repletas de volumes aguardavam por mim, e um mundo novo começava a se revelar. Kenede, em seu jeito entusiasmado, foi me guiando: “Aqui é literatura brasileira, aqui é literatura portuguesa...” Suas palavras vibravam de uma paixão que eu mal compreendia. 

Ele parou diante de uma prateleira e disse: “Aqui estão os livros de mistério e policiais, meus preferidos.” Era como se a biblioteca fosse um templo, e ele fosse o sacerdote de um conhecimento secreto. “Isto aqui, a coleção Agatha Christie, conhece?” Eu balançava a cabeça, incerto e intrigado. Ele me olhou com um misto de espanto e empolgação e, como se estivesse fazendo a entrega de um tesouro, me passou um livro: “Toma este, leia e depois me fala”. Era "Os Quatro Grandes", um dos muitos mistérios proporcionados pelo genial Hercule Poirot.

Quando cheguei em casa naquela noite, o habitual desejo de brincar na rua foi substituído por uma nova chama que ardia dentro de mim. Tomei banho, fiz uma refeição rápida e me deixei cair no sofá, ansiando por descobrir o que aquelas páginas tinham a oferecer. E assim, ao abrir o livro, desencadeei uma paixão que, até hoje, me acompanha. Desde então, fui me perdendo nas páginas de Agatha Christie, colecionando cada história, cada mistério do já familiar Poirot. Há anos, Poirot não é apenas um personagem, mas um amigo que eu reencontro a cada virada de página, principalmente nas histórias onde ele conta com a ajuda de seu (nosso) amigo Hastings.

Hoje, ao lembrar daquele dia, daquela tarde saudosa de um dia de aula nos idos de 1990, sou tomado por uma profunda gratidão pelo Kenede, aquele jovem tímido e diferente que, através de sua curiosidade sincera, abriu as portas de um mundo que eu não sabia que estava me esperando. Ele me levou a uma viagem sem fim pela literatura, onde as histórias se entrelaçam com a vida de uma forma que, por vezes, mal conseguimos captar. Naquela tarde distante de um dia comum de 1990, ele não me deu apenas um livro; ele me deu a liberdade de imaginar, de questionar, de sonhar. E por isso, sempre serei seu eterno agradecido.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Na casa do padre

Por alguns anos, tive a sorte de ser amigo de um padre belga que vivia em Ribeirão Preto. Seu nome era Padre Chico, um homem de riso fácil e palavras sábias. Ele adorava convidar os amigos para um café da manhã ou um almoço na casa paroquial, onde as longas conversas fluíam como o melhor dos vinhos. Era nesses momentos que ele falava sobre sua vida na Bélgica, sua ousada mudança para o Brasil e sua forte conexão com as causas sociais da região. Cada encontro era uma celebração da amizade, repleta de histórias e, por vezes, de risadas.

Lembro-me de uma ocasião em que ele nos convidou para almoçar: eu e meu amigo Filipe, um jornalista com alma de poeta. Era um dia ensolarado, e a expectativa pela refeição era palpável. Ao chegarmos, fomos recebidos com um belo sorriso do padre e o aroma de sua cozinha. Ele nos serviu uma entrada peculiar: endívias recheadas, um prato típico de sua terra natal.

“Espero que gostem, é uma iguaria belga,” disse Padre Chico, com seu sotaque doce e um brilho nos olhos.

Acontece que a endívia estava especialmente amarga. Eu, educado, comi a minha, mas Filipe, astuto como sempre, decidiu disfarçar. Antes que o padre pudesse prestar atenção, ele discretamente lançou a sua endívia no vaso de planta mais próximo.

“E então, Filipe, como você gostou da endívia? Quer mais?” perguntou Padre Chico, percebendo que o prato do jornalista estava vazio e já pegando outra para servir.

A endívia, já previsível, voou novamente no vaso, fazendo com que eu não conseguisse conter uma risada. No entanto, o padre, sempre otimista, não parecia se dar conta da cena cômica que se desenrolava diante dele.

Finalmente, chegou o grande momento: o prato principal. Padre Chico trouxe um generoso prato de almôndegas no molho de tomate, que exalavam um aroma delicioso. “Agora, isso vocês vão adorar!” exclamou ele, satisfeito.

Filipe, com a fome de quem não havia comido até então, rapidamente se serviu de duas grandes almôndegas e as devorou em um piscar de olhos. Já se preparando para outro prato, ele mal conseguia conter a empolgação.

Quando o almoço estava chegando ao fim e o café estava sendo servido, aproveitei a oportunidade quando Filipe saiu para o banheiro. O padre me olhou com ar cúmplice e disse, ainda com seu sotaque freanco-belga:

“Seu amigo come bastante, hein? Acho que ele adorou as endívias.”

Sorri, não só concordando com a observação do padre, mas também imaginando a cena em que a mulher que ajudava na limpeza da casa do padre encontraria as duas endívias abandonadas no vaso. Era uma situação inusitada, uma mistura perfeita de amizade e humor que tornava aqueles almoços ainda mais memoráveis. A amizade com Padre Chico e as risadas que compartilhamos estão gravadas em minha memória, um reflexo da simplicidade e do amor que ele trazia para aqueles momentos.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

1986

O ano era 1986 e, com apenas 11 anos, eu vivia em um mundo onde a magia parecia estar presente em cada pequena coisa. Sempre que me lembro do passado, 1986 resplandece como um brilho especial na minha memória, um ano que se tornaria a moldura de uma infância cheia de alegrias. 

Eu era um menino feliz, correndo pelas ruas da minha vizinhança com os amigos, jogando bola até o sol se pôr. As risadas e gritos de gol ecoavam pela vizinhança, e as tardes eram repletas de aventuras em que a única preocupação era o horário de voltar para casa. Na escola, a alegria se repetia: as aulas eram um porto seguro e a amizade era a ordem do dia, compartilhando segredos e sonhos com os colegas.

Antes de cada aula, eu me permitia um momento sagrado: a hora dos desenhos animados. A televisão se tornava um portal mágico, onde heróis ganhavam vida e as histórias se desenrolavam de forma encantada. Após esses momentos, voltava para a realidade, sempre com uma fome voraz. Mas, ah, como minha mãe era uma craque na cozinha! Ela sabia exatamente como transformar ingredientes simples em verdadeiras delícias. Nunca deixava minha fome durar muito tempo, e o cheiro de comida caseira preenchia a casa, criando um lar aconchegante.

E então, havia a Copa do Mundo. Meu coração batia forte ao saber que a dupla de ataque da seleção brasileira era formada por Müller e Careca, os craques do meu time, o São Paulo. Cada jogo era uma festa, um momento especial que compartilhava com familiares e amigos. Lembro particularmente do jogo contra a França, que assisti na casa do meu tio Mané, cercado pelos primos Samuel e Analu. O início daquela partida foi promissor, com uma triangulação magnífica entre Müller, Júnior e Careca, resultando em um gol que fez nossos corações saltarem de alegria. A euforia, no entanto, logo se transformou em desilusão quando a França empatou e ganhou nos pênaltis. 

Mas o que realmente ficou marcado na minha memória não foi apenas a derrota. Ao final do jogo, o tio Mané, tentando nos animar em meio à tristeza, disse: "No final do ano, vamos para Santos, ver o mar." A promessa de um passeio, de uma nova aventura, acendeu uma faísca de esperança em todos nós, e mesmo diante da frustração, aquela frase trouxe um consolo inesperado.

Ah, 1986, tão longe no tempo, mas tão perto do meu coração. Esse foi um ano em que a inocência e a felicidade se entrelaçaram, um ano que ficará para sempre guardado nas páginas mais queridas da minha história. Entre memórias de jogos, risadas e aquele cheiro inconfundível de comida caseira, percebo que, mesmo anos depois, cada fragmento daquela época ainda ressoa com a mesma intensidade, trazendo um sorriso ao meu rosto e calor ao meu coração.

Os apuros do mestrado

Era uma vez um estudante de mestrado em Química (sim, sou eu!) que se viu enfiado até o pescoço em uma reação que se recusava a colaborar. Foram três meses de tensão e frustração, como se eu estivesse tentando convencer um gato a tomar banho. O prazo do mestrado estava se aproximando mais rápido do que eu gostaria de admitir, e minha pesquisa parecia mais um drible do que um gol. 

Até que chegou a véspera de Natal de 2001. O campus da USP estava silencioso, com uma tarde quente que deixava o ar pesado, como se todas as reações químicas do mundo estivessem se escondendo em algum lugar. Enquanto isso, eu estava lá, cercado por frascos de vidro e papel toalha, a eterna luta contra a natureza. "Hoje é o dia", pensei, mais esperançoso do que um crente em véspera de feriado.

Com a mistura fervendo na bancada, senti que estava prestes a passar de "pesquisador frustrado" para "grande gênio da química". O cheiro do laboratório era uma mistura única de produtos químicos e o aroma do café que eu havia tomado às três da manhã, que ainda estava impregnado nas minhas roupas (e na minha alma). O aroma do café me fazia acreditar que eu podia enfrentar qualquer reação. E lá estava eu, como uma espécie de alquimista moderno, esperando por um milagre.

E então, como numa cena de filme, a mágica aconteceu! A reação finalmente deu certo! Eu quase chorei de alegria, ou talvez fosse só o resquício daquela última xícara de café que tomei. Naquele momento, eu sabia que meu trabalho de mestrado, que havia se tornado uma verdadeira novela, estava prestes a encontrar um desfecho feliz.

Enquanto celebrava essa pequena vitória, lembrei-me de todas aquelas noites em claro, das conversas informais com os guardas que faziam a ronda, e de como eles se divertiam com minhas histórias desesperadas sobre substâncias e fórmulas. Aquelas trocas de ideias tão bizarras quanto divertidas tornaram-se parte da minha jornada, e agora, aqui estava eu, correndo para reunir as peças do meu trabalho.

Naquele 24 de dezembro, ao olhar pela janela e ver as luzes de Natal piscando, percebi que todas aquelas tardes e noites intermináveis se transformaram em memórias incríveis. Podem não voltar mais, mas eu sempre as guardarei como um troféu — um diploma e um coração cheio de histórias insólitas. Porque, no final das contas, a pós- graduação não se mede apenas em reações químicas bem-sucedidas, mas na química que fazemos com as experiências vividas. Ah, e claro, sempre que eu sentar para tomar um café, não poderei deixar de lembrar do aroma que me guiou até aquela tarde mágica.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Vitórias inesquecíveis

As pequenas vitórias da vida são como estrelas brilhando no céu da memória, e cada uma delas conta uma parte da história de quem somos. Para mim, essas vitórias, embora aparentemente singelas, moldaram meu caráter e alicerçaram meu caminho. 

A primeira delas ocorreu em um dia ensolarado, no final de ano, quando a correria da vida cotidiana se ouviu misturada ao som animado de risadas e gritos. O condomínio promoveu uma corrida e, secretamente, eu havia treinado para isso. Aos 10 anos, escondido na tímida proteção da adolescência, atravessei a linha de chegada em primeiro lugar, sem que ninguém soubesse do carinho e do esforço investidos em cada passo. A medalha que ganhei naquele dia não é apenas um pedaço de metal, mas o símbolo das minhas primeiras conquistas, guardada como um tesouro em minha memória.

A adolescência se foi, e com ela veio o desafio maior: o vestibular da USP. Eu sabia que, se quisesse abrir portas para o futuro da minha família e de mim mesmo, essa batalha era inadiável. Naquela época, ser aprovado em uma universidade tão renomada era um sonho para muitos, mas para mim, era uma meta impossível em vista da nossa realidade financeira. Quando finalmente vi meu nome na lista de aprovados para o curso de Química, a alegria explodiu em meu coração. Fui a primeira pessoa em minha família a conquistar esse feito, e aquela vitória deu um sabor novo à vida de todos nós, aliviando um pouco o fardo que carregávamos.

Anos depois, quando a graduação se aproximava do fim, me deparei com outro desafio. A aprovação para o mestrado era uma competição acirrada, onde o primeiro lugar era a única opção. Em uma manhã ensolarada, sentado em sala de aula, um colega irrompeu a porta, e com um sorriso largo anunciou que o resultado havia saído. Quando ele olhou nos meus olhos e gritou que eu havia passado em primeiro lugar, uma onda de incredulidade e felicidade me envolveu. Pela primeira vez, a ideia de que eu poderia superar desafios, que eu poderia ser bom no que fazia, se firmou em minha mente.

A vida continuou a surpreender, até que, aos 40 anos, com algumas rugas e um coração cheio de esperança, voltei a enfrentar a competição: a prova para o instituto federal. Com a determinação de um jovem sonhador e as experiências de um adulto, coloquei todas as minhas forças na busca por uma vaga. Após uma intensa disputa contra 100 candidatos, a notícia chegou novamente: passei em primeiro lugar. Agora, como professor do IF, não apenas garanti um ganho financeiro, mas reencontrar a paixão por ensinar me trouxe uma nova potência de vida. 

Essas pequenas vitórias, ao longo da minha jornada, formaram um quadro rico e vibrante, embalado em lembranças. Cada uma me ensinou que o esforço vale a pena, que a resiliência pode iluminar os caminhos escuros e que, por mais desafiadores que sejam os obstáculos, somos capazes de superá-los. Uma vida, quatro vitórias, e a certeza de que cada passo dado é uma celebração do que somos e do que podemos vir a ser.

Cheiro de sardinha frita

Lembro-me da casa dos meus avós como se fosse um quadro pintado com as cores mais vivas das memórias. O aroma inconfundível da sardinha frita enchia o ar toda vez que eu cruzava o limiar da porta. Era um convite ao lar, uma sinfonia de sabores e recordações que me envolvia como um abraço quentinho. Ah, como o cheiro daquela sardinha tinha o poder de marcar o instante em que a infância, com toda a sua magia, se desdobrava diante de mim!

Cada vez que esse aroma agora invade meu presente, é como se eu fosse transportado para aquele espaço sagrado, onde tudo que eu queria era rir, correr e amar. Lembro-me da risada doce e contagiante da minha avó, ecoando pela casa, enquanto meu tio se servia generosamente para o jantar, criando um balé familiar que se desenrolava à mesa. O som do talher contra o prato era uma música que harmonizava nossos encontros, enquanto o mundo lá fora se tornava efêmero.

A presença do meu avô estava sempre anunciada pelo seu assovio característico que vinha dos fundos da casa, de onde ele cuidava com carinho a horta. Era como se as plantas dançassem ao ritmo de sua melodia, e eu, sempre curioso, imaginava que o assovio trazia consigo um pouco da magia da natureza, um sinal de que a noite estava prestes a começar com histórias e risadas.

Após o jantar, a sala se tornava um refúgio de união, todos reunidos em frente à TV, absortos na novela que alimentava nossas conversas. O tempo parecia suspenso, e a vida ali, naquela simplicidade, era pura. Quando a hora de trancar a casa se aproximava, meu coração se enchia de um doce conforto, sabendo que, antes de dormir, haveria o tradicional chá da noite, quentinho, feito com o amor que apenas uma avó sabe colocar em cada xícara.

Apagávamos as luzes, aquele ritual de despedida do dia, mas a luz da lamparina permanecia acesa no quarto dos velhos, iluminando o altar com imagens de santos que pareciam nos vigiar e proteger. Eu, então, me acomodava no velho sofá-cama que se tornara meu fiel companheiro de sonhos. Olhando para o teto, deixava que o silêncio daquela casa falasse, enquanto as sombras dançavam ao ritmo da lamparina, me embalando até que o sono chegasse.

E ao acordar, era como se o mundo tivesse rodopiado em um ciclo de amor e aconchego. O cheiro do café coado na cozinha invadia o ar, prometendo um novo dia. Todos prontos para começar de novo, com os corações aquecidos por lembranças que, mesmo distantes, nunca se apagarão. A casa, com seu cheiro de sardinha frita e risadas, sempre será meu porto seguro, um sussurro do passado que ecoa na alma, lembrando-me que o amor verdadeiro reside nas pequenas coisas.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A casa do vale (reencontros)

Naquele dia ensolarado, enquanto caminhava por trilhas de memórias entrelaçadas, o autor não pôde deixar de sentir a presença do passado a envolvê-lo como um manto acolhedor. O "Vale dos Reencontros" se expandia em sua mente, um cenário onde o que parecia perdido se tornava tangível, e onde a dor da ausência se dissipava, dando lugar a um calor reconfortante.

Cada elemento do vale parecia contar uma história. As montanhas, majestosas e silenciosas, eram testemunhas de risadas infantis e aventuras sem fim. O suave murmúrio do riacho carregava ecos de conversas, segredos sussurrados ao vento. O aroma do bolo, símbolo de amor e união, estava impregnado na atmosfera, como se o próprio ar celebrasse a felicidade da família reunida.

Enquanto conversava com seu avô, as palavras fluíam como se o tempo nunca tivesse sido uma barreira. O velho compartilhava histórias de dias passados e conselhos que ressoavam como sinfonias reconhecíveis, feitas para serem ouvidas de novo e de novo. A cada riso, uma lembrança era evocada; a cada silêncio, um sentimento profundo de conexão.

O tio, por sua vez, representava a calma e a paciência, traços que sempre admirou. A pescaria tranquila, a espera paciente, eram metáforas da vida e do que realmente importa: manter o espírito leve e a esperança acesa, mesmo diante das dificuldades. O olhar cúmplice entre eles era um laço infinito que desafiava a passagem do tempo.

E a avó, essa figura central, era o coração pulsante daquele vale. Seu carinho incondicional e os pequenos gestos entrelaçavam a família em uma tapeçaria de amor que nenhuma distância poderia desfiar. Enquanto o autor saboreava o bolo de fubá, cada mordida trazia à tona uma explosão de memórias alegres que o faziam sentir-se totalmente conectado a suas raízes. Era um reconhecimento de que essas experiências moldaram quem ele era, uma homenagem silenciosa à sua história.

Mas, então, ao acordar para a realidade, a transição foi suave, quase mágica. O vale, embora não mais visível aos olhos, perdurava em seu coração. A saudade, antes pesada, tornou-se leveza. A certeza de que o "Vale dos Reencontros" era mais do que um sonho, mas uma presença constante, aquecia sua alma. O amor familiar nunca se apagaria; ele sempre poderia revisitá-lo, sempre que desejasse, invocando as memórias que formaram o alicerce de sua vida.

Ainda com a sensação de tepidez do café em suas mãos, o autor sorriu. Embora o dia a seguir pudesse ser repleto de desafios, ele se sentia revigorado pela certeza de que, em algum lugar, seus entes queridos dançavam ao ritmo do tempo, e que o vale, em sua essência, continuaria sendo um refúgio eterno, sua verdadeira casa

1983

 Ah, 1983! Um ano que eu carrego no coração como se fosse uma raspadinha de limão bem gelada. Foi um ano de mudanças – e não me refiro apenas ao clima de Ribeirão Preto, que, como sempre, parecia indeciso entre o sol escaldante e a chuva torrencial. Eu saí da escola Amélia Musa, no Ipiranga, e fui parar na escola Cid, no Jardim Paulista. E com isso, vi minha vida escolar dar uma guinada digna de troca de direção numa pista de corrida.

Chegar no Cid foi como desembarcar em um novo planeta! Corríamos na hora do recreio como se estivessemos em uma das olimpíadas mais emocionantes da história, apostando corridas com os amigos. A adrenalina corria mais do que eu, e depois ainda tinha a excentricidade de comprar raspadinha na entrada do condomínio. Ah, raspa-pra-um-lado, raspa-pra-outro, como amo aquela mistura doce e geladinha! O gosto pela raspadinha nunca obedeceu a modas; até hoje, a primeira colherada me leva direto para a infância.

E como esquecer de aqueles momentos mágicos apertando todos os botões do elevador? Cada tarde se tornava uma aventura em um elevador que parecia mais uma montanha-russa. Era uma verdadeira competição de quem conseguia apertar mais botões antes que alguém gritasse: "Ótimo, agora você me deixou a caminho do subsolo, obrigado!" O elevador era nosso parque de diversões, e o grito que se seguia não era de alegria, mas sim de desespero dos que entravam.

Mas não dá para falar de 1983 sem mencionar o episódio que deixaria marcas profundas em meu espírito jovem e ingênuo: a final do Paulistão de 83. Ah, meus 8 anos, como foram cruéis! Eu vi meu São Paulo (time que aprendi a torcer por conta do meu pai e do pai do meu pai) enfrentar o Corínthians do ícone Sócrates Brasileiro, vestindo a camisa 8. Lembro-me de estar colado na televisão, toda a emoção de um pequeno torcedor, e toda a dor que vem com a derrota. Chorei como se tivesse perdido um aliado durante uma batalha épica. O único problema? Meu foco ficou todo voltado para o Sócrates, e que eu detestei naquele momento! Naquele momento, ele me machucou! Alimentei raiva e ranço de Sócrates e do Corínthians por muito tempo.

Com o passar dos anos, e aos poucos, a poeira do campo foi se assentando, percebi a grandeza daquele mito do futebol e da democracia corintiana. Entendi que aquele título significava muito mais do que uma vitória em campo; era, na verdade, um símbolo de esperança e uma revolução silenciosa nos corações dos torcedores brasileiros em um momento delicado do país. Sócrates me fez chorar em 83, mas ganhei algo em troca: o entendimento da grandeza da luta de um cara que entrou para a história. Sócrates, um ribeirãopretano do mundo. E aquele título de 83 foi fundamental para sua trajetória.

Assim, 1983 me ensinou sobre mudanças, sabor, amizades e um peculiar amor pelo futebol que transcende aos resultados. A raspadinha, o elevador e a dor da derrota tornaram-se parte da minha história. E a cada vez que transformo gelo em sabor, eu brindo a este ano que, no fim das contas, foi um verdadeiro refresco para a alma.