domingo, 29 de março de 2026

A viagem do meu tio Mané

Ah, meu tio Mané! O eterno promissor de aventuras que nunca chegou a cumprir. Se tivesse uma medalha para o atraso, ele seria o campeão mundial, sem sombras de dúvida! Irmão da minha mãe e pai dos meus primos Analu e Samuel, tio Mané era a definição perfeita de diversão: sempre tinha uma piada pronta, um sorriso largo e histórias que mais pareciam roteiros de cinema.

Era engraçado como o tempo andava de forma diferente quando ele estava por perto. Quando batia à porta e se despedia, soltava a frase mágica: "Semana que vem passo aqui de novo." E olha, essa "semana que vem" era uma entidade tão real quanto um unicórnio em Hollywood. A gente esperava, contava os dias, e, quando menos esperávamos, cinco anos já haviam passado! Se tivéssemos uma máquina do tempo, provavelmente poderíamos ter encontrado o Mané varrendo a casa dele, ainda esperando a hora certa de aparecer.

E sempre foi assim. Conta a minha mãe que certa feita, nos idos de 1960, ele, menino, havia prometido à diretora da escola que tocaria o hino nacional num cavaquinho no dia da Independência. O problema é que ele não sabia tocar nem cavaquinho nem qualquer outro instrumento. O resultado foi que no dia a diretora da escola mandou buscar o "cavaquinista" em casa e o "artista" havia fugido, só voltando para casa no final do dia com o sempre presente sorriso no rosto.

Mas teve um episódio que desbancava todos os outros: o dia em que ele saiu de casa dizendo que ia ao mercado e, pasmem, só voltou três anos depois! Ele se perdeu em uma aventura digna de um filme de Hollywood, aceitando um trabalho de vendedor de sapatos no meio do caminho, e, como se não bastasse, foi parar em um garimpo no Pará! E ainda voltou, claro, com um sorriso no rosto e um presentinho (que na verdade era uma sandália de dedo) para os meninos. Com esse histórico, é até compreensível que nós, crianças, começássemos a achar que o homem tinha uma conexão mágica com o tempo.

Corria o ano de 1986, quando ele, do nada, prometeu a nós uma viagem a Santos! "Este ano vamos para Santos, de perua!", anunciou com toda a pompa. A partir daí, foi um festival de promessas e sonhos. "Quando chegarmos lá, vamos à praia e depois tomar um caldo de cana com pastel!" A gente não se cansava de fantasiar sobre aquela viagem. Imaginar o caminho repleto de risadas na perua, as brincadeiras, e a nossa política secreta de comilanças no mar.

Claro que a viagem nunca aconteceu. As promessas foram se estendendo durante uns três anos e, aos poucos, fui percebendo que as promessas do tio Mané não eram bem prazos e mais sim uma forma de sonhar — e isso, por si só, já era uma grande aventura. Eu aprendi que há pessoas que enxergam a vida pelo prisma do sonho, e nisso meu tio foi um mestre.

Tio Mané se foi em 2016, mas deixou um legado imenso: a prática do sonhar. Um dia nos reuniremos na praia de Santos, com caldo de cana e pastel em mãos, e quem sabe ele não apareça para dar risada e contar como se perdeu mais uma vez pelo caminho. Obrigado, tio, pelas promessas e pela magia de acreditar que a vida é cheia de possibilidades. Até breve, na praia do tempo!

sexta-feira, 27 de março de 2026

O bilhete esquecido num livro

 A tarde estava pesada e o céu estava encoberto por nuvens cinzentas quando recebi a mensagem através do Facebook. "Você é o Ricardo que estudou no Tomaz Alberto em Ribeirão Preto nos anos 90?" A dúvida inicial logo se dissolveu em curiosidade. Sim, sou eu, respondi rapidamente. A resposta veio quase que instantaneamente: "Que bom! Tenho uma surpresa para você. Vamos nos encontrar na Biblioteca Pública e Comunitária."

Naquela tarde, enquanto caminhava pelas ruas, uma sensação estranha me acompanhava. O que poderia ser essa surpresa? Ao chegar à biblioteca, a primeira coisa que notei foi o cheiro de papel envelhecido, um aroma que me transportava de volta para tempos mais simples. Seus corredores eram conhecidos, mas o velho espaço tinha um ar de mistério quase palpável.

"Você é o Ricardo?" Uma senhora idosa me abordou, seu rosto iluminado por um sorriso nostálgico. 

"Sim, sou eu," respondi. "Você me chamou aqui?"

"Sim, querido," ela disse, com uma voz suave. "Venha comigo."

Ela me levou a uma estante no fundo da biblioteca, de onde pegou um enorme dicionário com um esforço visível. A capa estava gasta, e o livro parecia ter mais histórias do que eu poderia imaginar. Com delicadeza, ela abriu o livro quase ao meio.

"Olhe," disse ela, movendo uma página e revelando um pequeno papel que estava cuidadosamente escondido.

Demorou um minuto até que eu pudesse processar o que via. Era o bilhete que nós, eu, Evandro, Kenedi e Paulão, havíamos escrito trinta anos atrás e que havíamos escondido em um daqueles livros grossos e que ninguém abre numa das tardes em que fazíamos algum trabalho de pesquisa na biblioteca pública.

"Não posso acreditar!" exclamei, pegando o bilhete em mãos trêmulas. "Estávamos tão jovens naquela época...".

"Tem as assinaturas com os nomes de vocês", disse a senhora. Busquei informações na escola e cheguei até você.

Com um olhar bondoso, a senhora se afastou, permitindo que eu examinasse o que havia escrito. As palavras de cada um estavam ali, aninhadas numa caligrafia juvenil que parecia tão distante e ao mesmo tempo tão íntima. O meu próprio resumo me pegou de surpresa:

"Quem abrir este bilhete, saiba que aqui é o Ricardo Jimenez, e escrevo este bilhete com a esperança de um futuro feliz, tendo orgulho do que faço e fiz."

Naquele momento, fui golpeado por uma onda de emoções avassaladoras. Era como se tivesse recebido uma mensagem de um eu mesmo há muito esquecido. O passado e o presente se fundiram, e eu me senti no centro de uma máquina do tempo.

"Você está bem?" a senhora perguntou suavemente, percebendo a lágrima que escorreu pelo meu rosto.

"Eu... eu não sei," respondi, com a voz falhada, a beleza e a tragédia dos meus 50 anos se misturando em uma só lembrança.

"Esse bilhete carrega memórias," ela disse. "Ele é a prova de que o tempo pode ser um círculo, e não uma linha. Você ainda pode cumprir o desejo daquele garoto."

Saí da biblioteca segurando o bilhete com firmeza, as lágrimas agora transbordando livremente. As palavras que eu havia escrito aos 17 anos ecoavam em minha mente, e me perguntei: eu cumpri o desejo daquele jovem? Será que, ao longo das últimas três décadas, fiz jus a suas esperanças e sonhos? 

Com o bilhete apertado contra o coração, deixei a biblioteca. A chuva começou a cair, mas, em vez de tristeza, eu sentia uma estranha alegria. Estava prestes a embarcar em uma jornada de autodescoberta, guiado pelo eco do meu eu mais jovem.

quarta-feira, 25 de março de 2026

De farda olhando o futuro

Você já passou uma madrugada acordado? As razões para isso são infinidade, pois a insônia pode vir vestida de ansiedade, solidão ou, por que não, de esperança. Eu tenho minhas madrugadas guardadas na memória, mas aquelas do longínquo 1994 têm um lugar especial no meu coração.

Foi nesse ano que prestei serviço militar em Ribeirão Preto. Às vezes, eu me via de pé, em plantões de 24 horas, na guarita do quartel. As noites eram frias, a farda ajustada ao corpo e o som do coturno ecoando em meio ao silêncio que parecia abraçar o mundo. Eu tinha apenas 19 anos e, diante daquela fronteira tão distante chamada futuro, uma mistura de curiosidade e apreensão me dominava.

Meus pensamentos se desenrolavam como um filme em câmera lenta. Era um momento único, onde, de pé, eu construía sonhos e projetos. Eu sonhava com amores que ainda estavam por vir, visualizava cenários que aguardavam pela minha chegada. O que seria da minha vida? Como eu imaginava que as coisas se desenvolveriam? A presença do jovem que eu era, encolhido naquelas horas intermináveis, trazia uma intensidade peculiar àquelas noites.

Nunca, em um vislumbre da minha ingenuidade juvenil, eu poderia imaginar que um dia chegaria aos 50 anos e escreveria sobre aquele jovem fardado, sonhador e solitário. Se eu pudesse, por um instante, voltar no tempo e me colocar ali, ao lado do muro da guarita, em uma das muitas madrugadas silenciosas, o que eu diria a ele?

É complicado encontrar as palavras certas. Eu me vejo naquele rapaz, repleto de esperanças e dúvidas, e, de certa forma, é como se estivéssemos em diálogo. “Obrigado”, eu diria. “Continue a sonhar, persista naquilo que arde dentro de você, pois é essa chama que vai guiar seus passos por onde quer que vá. Tenho orgulho de você, mesmo quando as incertezas pesam no seu coração.”

A verdade é que aquele jovem não sabia que os sonhos que fabricou nas madrugadas frias moldariam a trajetória da sua vida de maneiras que ele nunca poderia conceber. Ele, invisivelmente, se tornou o arquiteto de meu presente, construindo alicerces que sustentariam os anos vindouros. Por isso, cada pensamento disfarçado no silêncio daquela guarita reverberou como um mantra de autodescoberta, e eu sou grato por cada um deles.

Hoje, ao lembrar daquelas noites, percebo a beleza que há em sonhar, mesmo quando o futuro parece nebuloso. Porque por trás de cada amanhecer, existe o eco das promessas feitas em meio à solidão. E, assim como naquele tempo, sigo sonhando, um passo de cada vez.


terça-feira, 17 de março de 2026

O Bode no Quartel

 Ah, 1994! Um ano que ficou gravado na minha memória como um verdadeiro desfile de aventuras, sustos e muita risada. Naquela época, eu estava alistado no Tiro de Guerra, onde acordar antes do sol surgir e vestir a farda se tornou uma rotina que eu nunca pensei que fosse tão… interessante. E não, não estou falando de um emocionante militarismo, mas sim de passar os sábados e domingos em um quartel isolado em Ribeirão Preto, onde o único "combate" era a luta contra o tédio.

Certa vez, durante um desses intermináveis plantões, decidimos que contar histórias era a solução perfeita para amenizar a monotonia. E assim, nos reunimos no pátio após o jantar, cada um mais disposto do que o outro a desvendar os mistérios da alma humana… ou simplesmente a inventar um bom terror. O Recruta Sá, com seu olhar brilhante e voz de narrador de rádio, começou a falar sobre fantasmas e vampiros, transformando o nosso lamento noturno em um verdadeiro espetáculo de terror. Depois de algumas horas, nossa conversa se dissipou e cada um voltou aos seus afazeres, sem saber que o verdadeiro susto ainda estava por vir.

Por volta das 2 da manhã, o cenário pacato do quartel foi abruptamente quebrado pelo berreiro do Recruta Oliveira, que entrou no dormitório como um furacão. “Vi o diabo! O diabo está lá fora!” – gritou, e em um instante, o quartel se transformou em um quadrado de tensão. Aqueles olhos arregalados dele poderiam fazer qualquer um acreditar que estávamos diante de uma entidade sobrenatural. 

Todos trocamos olhares e o medo começou a contagiar o grupo. Ficamos ali, plantados, sem coragem de enfrentar “o diabo”. Mas Sá, com seu espírito audacioso, pegou seu fuzil com a bravura de um verdadeiro herói (ou seria um grande idiota?) e decidiu que era hora de encarar o que quer que estivesse assombrando Oliveira. Saímos atrás dele, um grupo de guerreiros medrosos, cada um a uma distância segura.

Quando finalmente chegamos ao fundo do quartel, o silêncio da noite parecia quase palpável, e nossos corações batiam como tambores de guerra. Então, do fundo da escuridão, Sá bradou: “Achei o diabo!” E por alguns segundos, o mundo parou. O que será que ele encontrou? Um espírito maligno? Um fantasma sanguinário?

Quando nos aproximamos, porém, a verdade nos atingiu como um balde de água fria: o “diabo” do Oliveira não era nada mais do que um bode enorme, daqueles que vagam livremente em sítios e que aparentemente achou que nosso quartel era um excelente lugar para fazer um lanche de grama. O olhar de horror de Oliveira se transformou em alívio, seguido de uma onda geral de gargalhadas. O bode, indiferente ao caos que causara, continuava ali, pastando serenamente.

Depois de expulsarmos o bode e voltarmos à rotina do quartel, sabíamos que aquela história se tornaria uma lenda. E assim foi. Até hoje, décadas depois, as novas gerações no quartel ouvem a história do “diabo” que era, na verdade, um bode vagabundo, arrancando risadas e desafiando outros recrutas a enfrentar suas próprias sombras. Afinal, quem diria que um simples animal poderia ser o ingrediente essencial de uma amizade forjada na loucura e no riso? Ah, a vida de soldado nunca foi tão divertida!

domingo, 8 de março de 2026

As famosas balas de mel

O passado, às vezes, se revela como uma brisa suave no nosso coração, trazendo à tona aromas, sabores e emoções que estavam adormecidos. É assim que me sinto quando fecho os olhos e sou transportado para a casa do meu avô Ricardo, um refúgio mágico que abrigou nossa família nas tardes mais ensolaradas e nas noites mais estreladas. 

Meu avô era um contador de histórias magistral. Ele se sentava em sua cadeira de balanço, e todos nos reuníamos em volta, como se fôssemos folhas em torno do tronco de uma árvore, absorvendo sua sabedoria e encantamento. O tempo lá corria de forma diferente, as horas se misturavam em risadas e suspiros, e a presença dele se tornava eterna, mesmo quando a casa real, com seu corpo e voz, esteve conosco por apenas uma década.

Nessas memórias eternizadas, aprendi a cultivar a terra com as mãos sujas, a me perder nos segredos que as plantas medicinais escondiam, a pescar nas águas calmas, a tecer tarrafas sob a orientação de um olhar sábio e a jogar malha com a família, rindo e celebrando o simples. E, claro, as histórias de Zé Barnabé, as mais emocionantes e fantásticas, que ainda ecoam em minha mente e aquecem meu coração.

Mas, neste texto, quero falar das balas de mel. Sim, aquelas balas que meu avô comprava em quantidade generosa, como se fossem o ingrediente secreto para adoçar nossas histórias. Cada vez que ele distribuía uma, um brilho nos olhos de todos se acendia, uma festa de alegria. Menos em mim. Eu nunca gostei das balas de mel. Era um gesto de amor que eu aceitava, mas que, nas entrelinhas do meu ser, era mais uma diplomacia do que um verdadeiro deleite. E assim, em um pequeno conluio, sempre passava a minha bala para algum primo sorridente, como se estivesse escondendo um segredo precioso.

Não sei se meu avô um dia desconfiou dessa minha preferência disfarçada, mas, se pudesse lhe mandar uma mensagem, diria: “Vô, hoje, sinto saudades até das balas de mel.” Sinto falta do seu riso ao distribuí-las, do seu olhar ao relatar mais uma história. E, de alguma forma mágica, percebo que aquelas balas de mel, que nunca adoçaram minha boca, se tornaram uma metáfora para o amor que transbordava da sua presença. 

Agora, nesse espaço que ele deixou, percebo que cada lembrança, cada história, cada bala de mel tem seu lugar no meu coração. A casa do meu avô, com sua energia, seus ensinamentos e suas peculiaridades, vive eternamente em mim. E meu amor por ele, diferente de qualquer bala de mel, é intenso e incondicional. É doce, como o mel, mas tem o sabor da saudade que nunca se apaga.