quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A casa do vale (reencontros)

Naquele dia ensolarado, enquanto caminhava por trilhas de memórias entrelaçadas, o autor não pôde deixar de sentir a presença do passado a envolvê-lo como um manto acolhedor. O "Vale dos Reencontros" se expandia em sua mente, um cenário onde o que parecia perdido se tornava tangível, e onde a dor da ausência se dissipava, dando lugar a um calor reconfortante.

Cada elemento do vale parecia contar uma história. As montanhas, majestosas e silenciosas, eram testemunhas de risadas infantis e aventuras sem fim. O suave murmúrio do riacho carregava ecos de conversas, segredos sussurrados ao vento. O aroma do bolo, símbolo de amor e união, estava impregnado na atmosfera, como se o próprio ar celebrasse a felicidade da família reunida.

Enquanto conversava com seu avô, as palavras fluíam como se o tempo nunca tivesse sido uma barreira. O velho compartilhava histórias de dias passados e conselhos que ressoavam como sinfonias reconhecíveis, feitas para serem ouvidas de novo e de novo. A cada riso, uma lembrança era evocada; a cada silêncio, um sentimento profundo de conexão.

O tio, por sua vez, representava a calma e a paciência, traços que sempre admirou. A pescaria tranquila, a espera paciente, eram metáforas da vida e do que realmente importa: manter o espírito leve e a esperança acesa, mesmo diante das dificuldades. O olhar cúmplice entre eles era um laço infinito que desafiava a passagem do tempo.

E a avó, essa figura central, era o coração pulsante daquele vale. Seu carinho incondicional e os pequenos gestos entrelaçavam a família em uma tapeçaria de amor que nenhuma distância poderia desfiar. Enquanto o autor saboreava o bolo de fubá, cada mordida trazia à tona uma explosão de memórias alegres que o faziam sentir-se totalmente conectado a suas raízes. Era um reconhecimento de que essas experiências moldaram quem ele era, uma homenagem silenciosa à sua história.

Mas, então, ao acordar para a realidade, a transição foi suave, quase mágica. O vale, embora não mais visível aos olhos, perdurava em seu coração. A saudade, antes pesada, tornou-se leveza. A certeza de que o "Vale dos Reencontros" era mais do que um sonho, mas uma presença constante, aquecia sua alma. O amor familiar nunca se apagaria; ele sempre poderia revisitá-lo, sempre que desejasse, invocando as memórias que formaram o alicerce de sua vida.

Ainda com a sensação de tepidez do café em suas mãos, o autor sorriu. Embora o dia a seguir pudesse ser repleto de desafios, ele se sentia revigorado pela certeza de que, em algum lugar, seus entes queridos dançavam ao ritmo do tempo, e que o vale, em sua essência, continuaria sendo um refúgio eterno, sua verdadeira casa

1983

 Ah, 1983! Um ano que eu carrego no coração como se fosse uma raspadinha de limão bem gelada. Foi um ano de mudanças – e não me refiro apenas ao clima de Ribeirão Preto, que, como sempre, parecia indeciso entre o sol escaldante e a chuva torrencial. Eu saí da escola Amélia Musa, no Ipiranga, e fui parar na escola Cid, no Jardim Paulista. E com isso, vi minha vida escolar dar uma guinada digna de troca de direção numa pista de corrida.

Chegar no Cid foi como desembarcar em um novo planeta! Corríamos na hora do recreio como se estivessemos em uma das olimpíadas mais emocionantes da história, apostando corridas com os amigos. A adrenalina corria mais do que eu, e depois ainda tinha a excentricidade de comprar raspadinha na entrada do condomínio. Ah, raspa-pra-um-lado, raspa-pra-outro, como amo aquela mistura doce e geladinha! O gosto pela raspadinha nunca obedeceu a modas; até hoje, a primeira colherada me leva direto para a infância.

E como esquecer de aqueles momentos mágicos apertando todos os botões do elevador? Cada tarde se tornava uma aventura em um elevador que parecia mais uma montanha-russa. Era uma verdadeira competição de quem conseguia apertar mais botões antes que alguém gritasse: "Ótimo, agora você me deixou a caminho do subsolo, obrigado!" O elevador era nosso parque de diversões, e o grito que se seguia não era de alegria, mas sim de desespero dos que entravam.

Mas não dá para falar de 1983 sem mencionar o episódio que deixaria marcas profundas em meu espírito jovem e ingênuo: a final do Paulistão de 83. Ah, meus 8 anos, como foram cruéis! Eu vi meu São Paulo (time que aprendi a torcer por conta do meu pai e do pai do meu pai) enfrentar o Corínthians do ícone Sócrates Brasileiro, vestindo a camisa 8. Lembro-me de estar colado na televisão, toda a emoção de um pequeno torcedor, e toda a dor que vem com a derrota. Chorei como se tivesse perdido um aliado durante uma batalha épica. O único problema? Meu foco ficou todo voltado para o Sócrates, e que eu detestei naquele momento! Naquele momento, ele me machucou! Alimentei raiva e ranço de Sócrates e do Corínthians por muito tempo.

Com o passar dos anos, e aos poucos, a poeira do campo foi se assentando, percebi a grandeza daquele mito do futebol e da democracia corintiana. Entendi que aquele título significava muito mais do que uma vitória em campo; era, na verdade, um símbolo de esperança e uma revolução silenciosa nos corações dos torcedores brasileiros em um momento delicado do país. Sócrates me fez chorar em 83, mas ganhei algo em troca: o entendimento da grandeza da luta de um cara que entrou para a história. Sócrates, um ribeirãopretano do mundo. E aquele título de 83 foi fundamental para sua trajetória.

Assim, 1983 me ensinou sobre mudanças, sabor, amizades e um peculiar amor pelo futebol que transcende aos resultados. A raspadinha, o elevador e a dor da derrota tornaram-se parte da minha história. E a cada vez que transformo gelo em sabor, eu brindo a este ano que, no fim das contas, foi um verdadeiro refresco para a alma.