sexta-feira, 10 de abril de 2026

As aventuras do Zé Barnabé

Era uma vez um homem muito, mas muito pobre, que morava numa casinha coberta com pau de mandioca. O sol já começava a se pôr, tingindo o céu de laranja, quando Zé Barnabé, com a emoção estampada no rosto, se virou para seu velho pai.

— Pai, vou sair pelo mundo! Preciso encontrar um jeito de nos livrarmos dessa pobreza — disse Zé Barnabé, a determinação transparecendo em sua voz.

Seu pai, com o olhar cheio de orgulho e preocupação, acariciou a cabeça da cadelinha Perigosa, que olhava atenta.

— Meu filho, leve consigo a nossa essência e a coragem de um coração valente. Esteja sempre alerta e lembre-se: a bondade sempre traz recompensas.

Com um abraço apertado e lágrimas nos olhos, Zé Barnabé despediu-se. Ao se afastar, sentiu-se esperançoso, mas também ansioso. A estrada à sua frente era um mistério.

Enquanto isso, em um castelo distante, a princesa Sofia vivia sua triste sina, uma solidão que nem mesmo as riquezas do reino conseguia curar. Sofia costumava observar o mundo ao redor através de um espelho mágico. Assim, ela viu seu pai conversar com seus conselheiros sobre um concurso que escolheria o mais corajoso varão que iria desposar sua filha. O coração da princesa apertou de apreensão.

— Quem será este homem que irá vencer este concurso? Meu destino é cruel! — ela sussurrava, envolvendo-se em um misto de tristeza e ansiedade.

Zé Barnabé seguia seu caminho pela estrada silenciosa quando ele se deparou com uma formiga que gritava por socorro, presa no cocô de cavalo.

— Por favor, me ajude! Estou presa aqui! — implorou a formiga, seus olhinhos brilhando com medo.

— Não se preocupe, formiguinha! Vou te tirar daí — respondeu Zé Barnabé, puxando-a para libertá-la. 

A formiga, aliviada, limpava-se e olhava Zé com gratidão.

— Obrigado, cavalheiro! Com quem eu tenho a honra de falar?

- Me chamo Zé Barnabé, um sitiante em viagem por este mundo de Deus...

- Sua bondade será recompensada. Em retribuição á sua atitude, quero te presentear com uma de minhas perninhas. 

A formiguinha puxou e arrancou uma de suas perninhas...

- Na hora do perigo, sopre-a e me chame. Estarei lá para o que for preciso!

Zé Barnabé sorriu, guardando a perninha com carinho e seguia em frente na sua jornada.

Logo mais a frente, ele se deparou com um lago seco onde um peixe dourado revirava-se em agonia na areia.

— Por favor, não me deixe morrer! — lamentou o peixe.

— Você vai viver! — assegurou Zé Barnabé, correndo até o rio e carregando-o em suas mãos. 

Assim que o colocou de volta na água, o peixe sorriu.

— Você é um bom homem. Em gratidão, te presenteio com uma de minhas escamas. Na hora do perigo, sopre-a e chame por mim. Eu estarei lá por você!

Zé Barnabé fez uma pausa para descansar e refletir. 

- Essa caminhada está cheia de surpresas. 

Porém, a natureza ainda lhe reservava mais surpresas. 

Após alguns quilômetros, ele avistou um urubu rei com a asa machucada, contorcendo-se de dor na beira da estrada.

— O que aconteceu com você, meu pobre pássaro? — perguntou Zé Barnabé, correndo até a ave.

— Um caçador me feriu. Não consigo voar! — lamentou o urubu.

Com um gesto de compaixão, Zé Barnabé ajustou a asa machucada que estava com a articulação fora do lugar.

— Obrigado, amigo! — disse o urubu. — Em retribuição ao seu gesto de compaixão, te dou uma de minhas penas. Soprando-a, na hora do perigo, me chame e voarei até você!

Com a pena, a escama e a perninha, Zé Barnabé seguiu em frente, enquanto Sofia o observava no espelho mágico...

— Este Zé Barnabé é um homem bom! Não conheço muitas pessoas assim na vida! — ela exclamava, sem conseguir desviar os olhos do reflexo dele.

Ao chegar à capital do reino, Zé Barnabé entrou em um bar e ouviu sobre um concurso incrível: uma competição para encontrar o noivo da princesa. Os mais ricos homens do reino já haviam se inscrito. No bar, o concurso era o comentário do momento.

O príncipe do reino vizinho, um rapaz malicioso e oportunista, já planejava as artimanhas que o levariam à vitória. Ao observar isto pelo espelho mágico, Sofia ficou com medo.

- Não posso me casar com este sujeito desonesto e cruel. Mas ele tem poder para manipular a competição e vencer. O que faço?

No mesmo instante, os olhos da princesa brilharam...

No balcão do bar, ainda incerto do que fazer na capital do reino, Zé Barnabé tomava um trago quando um mensageiro o cutucou as costas...

-Você se chama Zé Barnabé? - disse o mensageiro.

-Sim.

O mensageiro estendeu a mão e deu a Zé um bilhete com as seguintes palavras: "Se inscreva no concurso, vença e tenha seu destino em suas mãos..."

Zé não entendeu nada. Ao se virar, o mensageiro já havia partido.

-Me insrever no concurso? Mas como vencer os adversários? São ricos e eu um pobre miserável sem futuro...

Ficou pensando por um tempo até que respirou fundo, tomou o último gole, se levantou e tomou a direção do castelo...

-Não tenho nada a perder e meu pai me disse que a bondade tem recompensa, vamos ver...

A princesa, olhando tudo pelo espelho, sorriu de alegria.

Zé realizou a inscrição e no dia do início do concurso, estava lá ao lado dos demais concorrentes.

O arauto anunciou a tarefa: "Quem conseguir chegar ao topo da grande montanha, apanhar o ovo da grande águia prateada e regressar ao castelo, terá a mão da princesa em casamento.

O príncipe desonesto olhou Zé Barnabé de alto a baixo.

— Eu não posso perder para um plebeu! — riu ele, ordenando que seus capangas eliminassem de cara o tal de Zé Barnabé.

Dito e feito. Os concorrentes saíram cada um para seu lado e, na primeira curva da estrada, os capangas do príncipe pegaram Zé Barnabé e o amarraram no tronco de uma árvore.

Preso à árvore, Zé Barnabé sentiu que tudo estava perdido até que se lembrou da perninha da formiga que estava no bolso de seu casaco. Se contorcendo com esforço, Zé alcançou a perninha e a soprou dizendo: "Valei-me, formiguinha". Em minutos, um exército de formigas roeu as cordas. Zé estava livre!

Ao olhar para trás ele viu a formiga e fez uma aceno de agradecimento.

Sofia, olhando o espelho mágico, vibrou.

Mas o príncipe desonesto armou outra cilada, fazendo Zé Barnabé confundir o caminho e se perder na margem oposta de um grande rio. 

— Eu preciso atravessar, mas como?! — disse Zé Barnabé. 

De repente, se lembrou da escama... Soprando o presente, logo o peixe dourado surgiu do fundo do rio.

— Suba nas minhas costas, e eu te levarei! — disse o peixe.

Agradecido, Zé Barnabé atravessou o rio e seguiu em segurança. 

Finalmente, chegou ao topo da montanha mágica e encontrou o ovo, brilhando sob a luz do sol. Vagarosamente, se esgueirou por debaixo da águia mãe, apanhou o ovo e saiu sem acordar a grande e perigosa ave.

— Eu consegui! — ele exclamou.

Mas no momento em que se virou, viu os capangas do príncipe maligno cercando-o, prontos para atacar.

— Não deixe ele escapar! — gritou um deles.

Desesperado, Zé Barnabé lembrou-se da pena que o urubu lhe dera. Ele a soprou, e o urubu rei apareceu, fazendo um mergulho brilhante.

— Prenda-se em minhas garras, Zé! — disse o urubu.

Zé Barnabé agarrou-se com força. Com um bate de asas majestoso, o urubu voou alto, deixando os capangas perplexos lá embaixo.

Lá de cima, Zé Barnabé viu o castelo ao longe. 

— Estou indo, princesa Sofia! — ele gritou, sentindo uma emoção intensa.

No palácio, Zé Barnabé foi recebido com aplausos e a princesa, com um brilho nos olhos, aproximou-se dele.

— Eu torci por você todo o tempo! — declarou ela, emocionada.

— Eu fiz tudo isso para te encontrar — respondeu Zé Barnabé, seu coração acelerado.

Com a bênção do rei, eles se casaram sob a luz de mil estrelas, e juntos buscaram o velho pai e a querida Perigosa.

E assim, Zé Barnabé viveu feliz, sempre cercado de amor e gratidão, sabendo que a bondade e a coragem podem transformar a vida de qualquer um, não importando quão pobre ele possa ser. Zé viveu o resto de sua vida junto de Sofia, fazendo o bem para a população do reino.

Samuel marcou de cabeça

O futebol esteve presente na essência da minha vida dos 7 aos 17 anos, um amor que me moldou, que me fez mais forte e me ensinou a enfrentar desafios com bravura e um sorriso no rosto. Aqueles dez anos não foram apenas um passatempo; foram uma imersão em um mundo onde cada drible, cada gol e cada derrota eram lições de vida, construindo amizades e vínculos que transcenderam o campo. Entre risos e lágrimas, conheci o medo e a confiança, mas, acima de tudo, aprendi a valorizar a jornada.

Uma das maiores histórias que esse esporte me proporcionou foi a relação que formei com meu primo Samuel. Desde pequenos, éramos inseparáveis, filhos de famílias unidas pela paixão pelo jogo. A memória mais vívida que guardo dessa ligação foi um dia de domingo, em que nos encontramos frente a frente com o desafio mais audacioso de nossas vidas: a final do campeonato de futebol society da quadra do Gordinho, um evento lendário que pulsava no coração da região norte de Ribeirão Preto.

A quadra estava repleta, pulsando com gritos de apoio, baterias ressoando, e o ar estava carregado de uma mistura de ansiedade e expectativa. Assim que a partida começou, fomos pegos de surpresa — dois gols rápidos do adversário deram um golpe na nossa confiança. O sentimento de desespero parecia nos envolver, mas ainda não conhecíamos a mágica que estava prestes a acontecer.

Naquele momento crucial, com o nosso destino em jogo, o universo conspirou a favor da nossa conexão. Recebi a bola, e com um toque certeiro, cortei para o meio do campo. Com toda minha força e alma, bati de esquerda, uma trajetória direta ao ângulo. O grito de “gol” ecoou em nossos corações. Olhei para Samuel e vi a confirmação em seu olhar, um gesto que dizia: "Isso aí, primo, estamos juntos!".

Minutos depois, o goleiro adversário lançou a bola em minha direção. O tempo parecia ter parado. Dominei com precisão e, instantaneamente, percebi Samuel se movimentando à minha frente, braço levantado, pedindo a bola. Com um cruzamento perfeito, cobri o zagueiro e a bola encontrou sua cabeça, um momento em que o mundo parecia se alinhar perfeitamente. O gol do empate não era apenas um prêmio pela nossa perseverança, mas uma celebração de nossa ligação de sangue, de sonhos e companheirismo.

Apesar de termos perdido aquela final por 3 a 2, o que realmente importa é que aqueles dois momentos tomaram forma, esculpindo um lugar sagrado em nossas memórias. O jogo se transformou em um símbolo de nossa juventude, um refletor sobre como o futebol não era apenas um esporte, mas um forjador de emoções e laços que nos acompanhariam para sempre.

Naquele dia, no calor da quadra, senti a presença intensa do meu primo, e percebi que, juntos, enfrentávamos mais que adversários: estávamos batendo de frente com a vida. O futebol nos ensinou que, mesmo nas derrotas, existem vitórias que ecoam em nossas almas, entrelaçando nossos destinos, ligando-nos eternamente através das memórias de um simples jogo.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Amor verdadeiro...

Milhares de pessoas passam a vida imersas em sonhos, idealizando o amor verdadeiro, aquele sentimento profundo que aquece a alma, mas que muitas vezes se disfarça sob a chama passageira de uma paixão efêmera. Por muito tempo, eu fui uma dessas pessoas sonhadoras, buscando aquele amor que promete eternidade, que é mais do que fogo na palha. E, de certa forma, eu o encontrei. Ou melhor, eu o senti vibrar em meu coração, fazendo ecoar uma certeza quase mágica.

Sei distinguir o amor verdadeiro de todas as outras experiências que já vivi; conheço sua essência e seu peso. Dediquei anos dessa caminhada ao amor que, em minha mente, se apresentava como definitivo. Com todas as minhas forças, fiz dele meu propósito, entreguei-me sem reservas, acreditando que, ao desempenhar meu papel, ele floresceria e se tornaria a realidade que almejava.

Contudo, a vida tem um jeito peculiar de nos ensinar sobre as nuances do amor. A verdade, que às vezes é difícil de engolir, é que eu senti o amor verdadeiro, mas não tive a oportunidade de vivê-lo plenamente. Senti sua profundidade, sua beleza, mas ele se mantinha distante, como um sonho que não se concretiza. Se alguém me perguntar, hoje, o que eu realmente penso disso, a resposta se dissolve em incertezas: não sei ao certo.

É reconfortante saber que o amor verdadeiro existe, um sentimento tão poderoso, tão raro. Mas, ao mesmo tempo, é doloroso perceber que ele escolheu não ficar comigo, que seus caminhos seguiram em outra direção. Essa ambiguidade do saber e do sentir me deixa em um turbilhão de emoções. O amor verdadeiro pode ser uma luz que ilumina, mas também uma sombra que nos deixa na penumbra, lembrando que, às vezes, o que mais desejamos está ao nosso alcance, mas não da forma que imaginamos.

Pôr do Sol na varanda

Acordou bem cedo, como era seu costume. Preparou o café e saboreou lentamente a bebida, fixando o olhar na parede da sala, perdido em seus pensamentos. Naquela manhã, demorou-se mais do que o habitual; uma sensação de melancolia parecia prendê-lo ali. Após alguns minutos, com um esforço visível, saiu para cuidar dos animais, sendo saudado pelo canto do Bem-Te-Vi. Sorriu, como sempre, e devolveu o cumprimento, mas notou que o pássaro parecia também carregar um ar de tristeza.

Após cumprir suas tarefas domésticas, lavou o rosto, bebeu da água da moringa e seguiu pela estrada, ciente de que ainda tinha muito a fazer. No entanto, aquela manhã carregava algo de diferente, uma inquietação no ar. Foi então que um perfume conhecido invadiu suas lembranças, um aroma do passado que ele não conseguia identificar a origem. Nenhuma flor daquela trilha tinha aquele cheiro especial. Imediatamente, lembrou-se de um sorriso, vislumbrou um leve movimento de cabelos e uma forma de andar. O coração apertou junto com seus passos, e ele acelerou o ritmo na tentativa de se afastar daquela lembrança.

Mergulhou-se no trabalho, tentando se distrair. Ao voltar para casa, exausto, tomou um banho gelado e serviu-se de um trago de cana. Depois, acendeu um cigarro de palha e se acomodou na varanda. Observou o pôr do sol em sua cadeira de balanço, ouvindo o “boa noite” do seu amigo Bem-Te-Vi. À medida que a noite se instalava, a penumbra encobriu uma lágrima solitária que escorregou por seu rosto. Ali, em seu cantinho isolado, o que lhe restava? Apenas o trabalho, o Bem-Te-Vi e uma profunda saudade...

quinta-feira, 2 de abril de 2026

A unha do tamanduá

Era uma época em que a vida pulsava nas fazendas, onde as caçadas e pescarias eram o coração da existência, e as conversas à luz do candeeiro aqueciam as noites após um dia de trabalho. Nessa agitação, vivia uma figura excepcional: Zé Colodino.

Eu, ainda um menino, conheci-o numa tarde ensolarada, levado por meu avô. Nessa fase, Zé já residia na cidade, aposentado das lidas do campo, em uma casa que exibia uma varanda fresca, rodeada por um quintal extenso, perto da antiga estação. Apesar de nossas interações serem poucas, talvez apenas uma dúzia de encontros, as histórias que ele contava na varanda marcaram minha infância indelével.

Uma dessas histórias, em particular, tornou-se um símbolo de coragem e aventura em minha memória. 

As caçadas na mata do Capão eram o passatempo mais cobiçado das tardes de domingo. Não se tratava de caçadas ordinárias; ali podia-se caçar de tudo, desde um simples tatu-peba até um bando de codornas, um cateto e, quem sabe, até uma onça. É verdade que onças, de fato, nunca apareceram, exceto por uma ou outra jaguatirica miúda, mas a ideia de enfrentar uma onça sempre pairava no ar.

Naquela tarde, Zé Colodino armou-se de coragem, acompanhado de seu compadre e dos fiéis cães de caça: Perigosa, uma cadela desenvolvida por bravura, e Corisco, um vira-lata preto, astuto e com um faro inigualável. Com a garrucha de cano duplo e o facão guarani pendurados ao cinto, Zé Colodino liderou o grupo na travessia da trilha.

A mata do Capão, vasta e inexplorada, já assustava à luz do dia; à noite, era um mistério profundo, habitado por perigos visíveis e invisíveis. O medo da onça pairava sobre todos, embora poucos tivessem coragem de mencioná-lo em voz alta. O compadre, de face pálida e olhos arregalados, revelava que aquela era sua primeira vez e a aventura que o aguardava ainda estava no horizonte.

“Vamos ‘bordejar’ essa mata, meninos!”, exclamou Zé, enquanto assobiava um tom de esperança. A caçada começava na transição do dia para a noite, e os sons da natureza cresciam ao redor deles. Corisco parou abruptamente, orelhas em pé.

— Shhh! — Zé fez um gesto para que todos se agachassem, inclusive Perigosa, que se aproximou dele.

O compadre, com o coração acelerado, murmurava baixinho: “Que seja um tatu… Por favor, não uma onça.” 

E então, os olhos de Zé brilharam. — “É um casal de catetos! Vai, Perigosa!”

Com um salto poderoso, os catetos dispararam mato adentro, seguidos pela cadela e Corisco. Zé Colodino mergulhou na mata com um fervor impressionante, e o compadre, tomado pelo espírito da aventura, não ficou para trás. 

A escuridão começou a tomar conta da floresta, mas, seguindo os latidos frenéticos dos cachorros, o compadre encontrou o local onde Perigosa guardava o cateto abatido. A carne e a banha da semana estavam garantidas, mas Zé… onde estava Zé Colodino?

Um estrondo cortou o ar, o tiro da garrucha reverberando a cerca de cinquenta metros de distância. Com o coração no peito, o compadre lutou através da vegetação até que ouviu gemidos agonizantes. — “Ai, ai…”

Quando finalmente encontrou Zé, ele estava preso em uma moita de taboca, o corpo quase que todo enredado naquelas folhas traiçoeiras.

— “Que foi, Zé?” — perguntou o compadre, com uma voz trêmula.

— “Me ajuda, homem!” — a voz de Zé soava desesperada.

Com habilidade e um punhal afiado, o compadre cortou as amarras de taboca que prenderam Zé. Mesmo ensanguentado, não havia tempo para palavras; pegaram o cateto e retornaram.

Na sala de casa, depois de tratar da ferida nas costas, Zé se levantou, um brilho travesso nos olhos. — “Olhem isso!” Ele exibiu a unha afiada do tamanduá-bandeira, que quase lhe custara a vida.

— “O que aconteceu?”, perguntou um dos presentes, admirado.

— “Eu não vi o tamanduá! Quando entrei na mata, mudei de direção e caí na toca da besta! O bicho me abraçou, e só não fui pro beleléu porque a unha grudou na taboca...”

Todos riram, menos eu. O silêncio se instalou, enquanto absorvia a intensidade da história. Zé lançou um olhar cúmplice para mim e para meu avô. Ambos riram de forma descontraída, e Zé se levantou, retornando à varanda. Ele estendeu a mão na minha direção, revelando a unha do tamanduá.

— “Quer ver mais?”

Nem me recordo da minha resposta, mas ao tirar a camisa, vi a marca na própria pele, na altura do pulmão.

No caminho de volta para casa, a conversa fluiu como um rio tranquilo; meu avô parecia perdido em pensamentos, mas eu sabia que a história do Zé Colodino, a unha do tamanduá e aquela marca nas costas me acompanhariam para sempre, como um eco das aventuras que moldaram minha infância.

O dia que acabou e eu me despedi ( Tomaz)

Você sabe qual foi o período mais feliz da sua vida? Eu sei, porque ecoa em mim como uma canção suave que se recusa a se apagar. Foram os meus anos de ensino médio no Tomaz Alberto, aqueles gloriosos anos dourados de 1990, 1991 e 1992. Dias leves como plumas, em que as risadas se misturavam ao grito dos meninos jogando bola no pátio e os sonhos eram tão palpáveis que podíamos tocá-los com as pontas dos dedos.

Cada canto daquela escola guardava uma história, um segredo sussurrado entre os corredores. A quadra com sua grande cúpula, majestosamente erguida, era o coração pulsante do lugar, onde aprendíamos a vencer e a perder, mas, principalmente, a nos unir em torno de um mesmo ideal. A biblioteca, um templo de conhecimento, me acolheu nos braços da literatura, revelando-me mundos desconhecidos e instigando meu amor pelas palavras.

Ah, os corredores! O cenário das nossas paqueras disfarçadas, onde o olhar penetrante de um amor não correspondido se cruzava com a cumplicidade de um sorriso. Lembro-me das tardes em que nos aventurávamos a fazer teatro, a criarmos um programa de rádio que ecoava a nossa voz, a organizarmos campeonatos que colocavam em prova não só a habilidade, mas a amizade e a rivalidade de uma juventude vibrante. Encanávamos aulas, sim, mas era a liberdade do conhecimento que buscávamos, sempre envolvidos em discussões sobre o futuro, sentados em roda, compartilhando nossos sonhos.

Ali, entre as risadas e a expectativa do porvir, semicerrados os olhos, vislumbramos médicos, engenheiros e professores em formação. E eu, inspirado pelo professor Gabarra, fiz a minha escolha: ser químico e, um dia, professor de química, como ele. Naquela época, a vida parecia um livro em branco, pronto para ser escrito com as mais coloridas tintas da esperança.

Mas tudo que é bom chega ao fim, e eu me recordo bem do último dia. Dezembro de 1992. Caminhei sozinho pelo prédio, meu coração pesado, mas repleto de memórias. A despedida estava ali, nas paredes que tão bem conhecia, nos risos que ecoavam como sussurros distantes. A sala de aula foi o último lugar. Quando o sinal tocou, todos se levantaram, como se aquela não fosse uma despedida, mas apenas um interlúdio na canção da vida.

Eu fiquei por último, sentado, observando cada detalhe. Era a última vez que veria aqueles rostos, aquelas mesas, aquele quadro negro que tinha sido palco de tantas histórias. Um pedaço de mim se despedia, mas não sem resistência.

Despertei com o grito do Evandro: “Oh, idiota! Vai ficar aí sentado? Vamos, o pessoal tá esperando". E, como um despertar do sonho, saímos todos juntos, subindo a rua em direção ao bar da esquina. Pedi uma Coca-Cola e saboreei um salgado, repetindo a rotina dos últimos três anos. Mas, ao mesmo tempo, aquela também era a última vez. O último retrato da simplicidade de uma juventude que, como eu, buscava seu lugar no mundo.

É engraçado como, ao olhar para trás, vejo que aquele período, com todas as suas incertezas e alegrias, continua vivo em mim. Os anos dourados de Tomaz Alberto, moldados em risadas, sonhos e despedidas, são cravados na memória como um tesouro que guardarei para sempre.

O dia que acabou e eu nem percebi (Musa)

Nós nunca sabemos se é pela última vez. Essa verdade simples e profunda ecoa em nossas vidas de maneiras que muitas vezes não conseguimos perceber. Muitas vezes, dizemos adeus sem saber que aquele será o último olhar, o último sorriso, a última risada compartilhada. 

Lembro-me do final de 1989, um tempo em que minha infância se desdobrava em algumas das memórias mais queridas da minha vida. Foi naquele período que ouvi, pela última vez, o sinal que anunciava a hora da saída da escola Musa, onde passei oito anos mergulhado em descobertas e aprendizagens. Não tenho recordações claras do último dia, mas cada instante vivido ali continua a vibrar em mim, como as cordas de uma guitarra tocando uma melodia eterna.

O Musa era mais do que uma instituição; era um lar, um refúgio onde aprendi a me defender nas disputas de ideias e nos jogos de tabuleiro, a entender o que significa ter um amigo e estar disposto a ser um. Foi na sala de aula que os professores inesquecíveis me ensinaram a sonhar, a namorar, a superar as dificuldades – um verdadeiro campo de batalha onde cada pequeno triunfo se tornava uma vitória. 

As tardes eram preenchidas por aventuras nas quadras, por campeonato de futebol que o seu Cláudio organizava com tanto entusiasmo, pela cantina do seu Viana, onde os lanches saborosos e os risos se misturavam. As broncas de seu Lair eram quase uma cerimônia de passagem; eu via naquela rigidez uma preocupação genuína, um desejo de nos ver crescer. E como esquecer o olhar penetrante da dona Guimar, a inspetora que nos acompanhava com a firmeza de uma mãe? Sua presença mantinha a ordem e o respeito num ambiente repleto de sonhos e inquietações adolescentes.

Entrei no Musa como uma criança de sete anos, e saí um rapaz de quatorze, transbordando memórias que criaram a base do que eu sou hoje. Não me recordo exatamente de como foi aquela última tarde; talvez cheguei com minha mochila gasta, trocando ideias com amigos ao sentar na mureta do pátio como sempre fazíamos, ou chutando uma bola despreocupadamente, como se o tempo não tivesse pressa. 

E então, com o coração apertado, atravessei o portão pela última vez. Sabia que deixava para trás não apenas um espaço físico, mas uma parte de mim, uma fase da vida que se despedia, carregando na mochila as risadas, os sonhos e as lições, como um tesouro inestimável. 

Nunca soubemos que era a última vez. Mas, numa dessas despedidas silenciosas, aprendemos que o que realmente importa são as experiências vividas, os vínculos formados e o amor que se perpetua na memória. O Musa, minha eterna segunda casa, vive em mim. Ele será sempre um pedaço do meu coração.