Ah, 1983! Um ano que eu carrego no coração como se fosse uma raspadinha de limão bem gelada. Foi um ano de mudanças – e não me refiro apenas ao clima de Ribeirão Preto, que, como sempre, parecia indeciso entre o sol escaldante e a chuva torrencial. Eu saí da escola Amélia Musa, no Ipiranga, e fui parar na escola Cid, no Jardim Paulista. E com isso, vi minha vida escolar dar uma guinada digna de troca de direção numa pista de corrida.
Chegar no Cid foi como desembarcar em um novo planeta! Corríamos na hora do recreio como se estivessemos em uma das olimpíadas mais emocionantes da história, apostando corridas com os amigos. A adrenalina corria mais do que eu, e depois ainda tinha a excentricidade de comprar raspadinha na entrada do condomínio. Ah, raspa-pra-um-lado, raspa-pra-outro, como amo aquela mistura doce e geladinha! O gosto pela raspadinha nunca obedeceu a modas; até hoje, a primeira colherada me leva direto para a infância.
E como esquecer de aqueles momentos mágicos apertando todos os botões do elevador? Cada tarde se tornava uma aventura em um elevador que parecia mais uma montanha-russa. Era uma verdadeira competição de quem conseguia apertar mais botões antes que alguém gritasse: "Ótimo, agora você me deixou a caminho do subsolo, obrigado!" O elevador era nosso parque de diversões, e o grito que se seguia não era de alegria, mas sim de desespero dos que entravam.
Mas não dá para falar de 1983 sem mencionar o episódio que deixaria marcas profundas em meu espírito jovem e ingênuo: a final do Paulistão de 83. Ah, meus 8 anos, como foram cruéis! Eu vi meu São Paulo (time que aprendi a torcer por conta do meu pai e do pai do meu pai) enfrentar o Corínthians do ícone Sócrates Brasileiro, vestindo a camisa 8. Lembro-me de estar colado na televisão, toda a emoção de um pequeno torcedor, e toda a dor que vem com a derrota. Chorei como se tivesse perdido um aliado durante uma batalha épica. O único problema? Meu foco ficou todo voltado para o Sócrates, e que eu detestei naquele momento! Naquele momento, ele me machucou! Alimentei raiva e ranço de Sócrates e do Corínthians por muito tempo.
Com o passar dos anos, e aos poucos, a poeira do campo foi se assentando, percebi a grandeza daquele mito do futebol e da democracia corintiana. Entendi que aquele título significava muito mais do que uma vitória em campo; era, na verdade, um símbolo de esperança e uma revolução silenciosa nos corações dos torcedores brasileiros em um momento delicado do país. Sócrates me fez chorar em 83, mas ganhei algo em troca: o entendimento da grandeza da luta de um cara que entrou para a história. Sócrates, um ribeirãopretano do mundo. E aquele título de 83 foi fundamental para sua trajetória.
Assim, 1983 me ensinou sobre mudanças, sabor, amizades e um peculiar amor pelo futebol que transcende aos resultados. A raspadinha, o elevador e a dor da derrota tornaram-se parte da minha história. E a cada vez que transformo gelo em sabor, eu brindo a este ano que, no fim das contas, foi um verdadeiro refresco para a alma.
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