Eu não gosto de natais. E o meu desgosto não é por ser esta uma data comercial e repleta de hipocrisia. Não. Meu desgosto vem do fato de que os natais me lembram aquilo que eu não consegui ser, aquilo que eu não consegui ter e aquilo que eu não consegui fazer.
O natais me jogam na cara a minha impotência e descortinam à minha frente o tempo que se passou e o tempo que eu perdi.
Houve um tempo em que eu gostei dos natais, eu acho. Quando criança eu gostava dos natais. Eu sentia, na minha compreensão infantil, que o meu mundo fazia sentido e nele havia uma estrada em que eu caminhava. Eu tinha uma estrada e ela tinha uma direção e nesta direção eu olhava e caminhava.
Mas, depois, eu descobri que algumas coisas não faziam nenhum sentido. A estrada sumiu, a direção sumiu e eu tive que construir o meu próprio caminho. E, junto com a ausência da estrada, do sumiço do sentido, veio o desgosto pelos natais, pois nos natais eu não conseguia disfarçar os meus fracassos diante da cobrança cruel e pública pelos sucessos.
Cedo, com 14 anos, eu perdi a minha figura de referência, o meu avô. Depois, desconstruiu-se na minha frente a figura do meu pai. E revelou-se na minha frente a figura frágil da minha mãe. Minhas mulheres foram fugazes ou, quando foram fogo em brasa, não puderam me assumir ou, as que podiam, eu não as quis. Não me casei, não tive filhos e não consegui escapar das armadilhas da vida que me prendem a obrigações que cortam as minhas asas e a minha coragem.
Nos primeiros anos, a cada início, eu esperançava a felicidade, a sensação de sucesso que me levaria a um natal normal e sem dor. Planejava os amores, os sabores, a liberdade e as vitórias. Mas os anos se passaram e meu sonho não se realizou.
Nos primeiros anos, a cada início, eu esperançava a felicidade, a sensação de sucesso que me levaria a um natal normal e sem dor. Planejava os amores, os sabores, a liberdade e as vitórias. Mas os anos se passaram e meu sonho não se realizou.
E, nos natais, quando todos se juntavam para celebrar suas estradas que lhes davam sentido, as minhas fraturas internas eram expostas e a minha falta de sucessos e de sentido dilacerava meu coração.
Como doía.
Como doía.
Com o tempo fui construindo uma máscara. Mas ela só funciona nos dias normais, quando eu consigo disfarçar meus fracassos e a minha verdade e construo a minha mentira. Talvez mentira seja uma palavra forte demais. Com a minha máscara eu construo a minha verdade alternativa. Nela eu sou forte, desdenho em público das fraquezas que me castigam no privado. Na minha verdade alternativa envolvo minha verdade em mistério, invento personagens, floreio narrativas, me protejo da dor.
Menos nos natais.
Por isso, nos últimos vinte natais eu me escondo, um após o outro. Para o público, eu invento uma viagem, mas fico mesmo no recolhimento do meu quarto contando as horas para tudo passar e a vida voltar ao normal, onde o que se apresenta é o meu eu mascarado.
E enquanto o final não chega, sigo sonhando em um dia fazer as pazes com os natais.
E enquanto o final não chega, sigo sonhando em um dia fazer as pazes com os natais.

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