Era uma manhã radiante de um dia de outono de 1988. O sol despontava no horizonte, prometendo um dia bonito, mas a verdadeira temperatura naquele momento era medida pelo nervosismo e pela expectativa que me dominava. Meu primo Samuel e eu, com apenas 12 anos, éramos tão apaixonados por futebol que havia uma chama ardente dentro de nós, uma fome insaciável de jogar, de fazer parte do universo mágico que se desenhava ao nosso redor. Na véspera, teria sido impossível dormir. A ansiedade pulsava nas veias como a adrenalina antes de um grande jogo. Dormi na casa do meu tio e, por mais que tentasse, as horas se arrastavam; cada minuto se transformava em uma eternidade.
Levantamos cedo, quase que ainda sob a luz da lua, pegamos o ônibus e rumamos em direção ao clube do Comercial, que se erguia ao lado do mítico estádio Palma Travassos — a “jóia” do Jardim Paulista. A cada quilômetro percorrido, o meu coração batia mais forte, embebido em sonhos e esperanças. Aquela “peneira” era a nossa grande chance de mostrar nosso talento, de sermos vistos e, quem sabe, de entrar para a base do time do Leão. Mistos de ansiedade e excitação se entrelaçavam, criando um turbilhão em nossos ânimos.
Chegamos e já fomos dando os nomes e as posições em que jogávamos para o organizador da peneira. A manhã correu com um jogo atrás do outro, com os times montados aos gritos dos nomes e das posições de acordo com as inscrições.
Quando chegou minha vez de jogar, a responsabilidade quase me paralisou. Entrei em campo como ponta esquerda; o cheiro da grama e o eco dos gritos das crianças se misturavam com as instruções do olheiro que observava cada movimento com um olhar clínico. Havia poucas chances de tocar na bola, e quando essa oportunidade surgisse, precisava ser perfeita. Joguei como se minha vida dependesse disso. Quando finalmente recebi a bola, tudo aconteceu em câmera lenta. Olhei para dentro da área e, com um movimento ágil, fiz um cruzamento preciso, colocando a redonda na cabeça do atacante como um artista que encaixa a peça final em uma obra-prima. O olheiro gritou: “Boa bola!” e eu senti uma onda de realização percorrer meu corpo. Um pequeno triunfo num universo cheio de incertezas.
Quando finalmente chegou a vez do Samuel, a mágica se repetiu. O garoto, rápido como um raio, foi direto para a área. Na primeira bola que tocou, ele penetrava na área adversária, e com um toque sutil, fez o que mais amávamos: marcou um gol. O grito do olheiro, anotando outra observação na prancheta, ecoou em nossos corações. A manhã passou, e quando os resultados finalmente saíram, somos recebidos por uma notícia que alimentou nossos sonhos: Samuel e eu estávamos aprovados. Éramos parte da base do Comercial, o primeiro passo numa jornada que esperávamos ser gloriosa.
Ainda nas nuvens, ouvimos o organizador do clube dizer que os aprovados poderiam passar o resto do dia na piscina. Naquele momento, éramos reis. Mas a felicidade tinha um sabor agridoce, como a mistura entre a alegria e a fome que começava a nos atacar. O tempo passava e já era quase 15h quando a necessidade de alimento se fez sentir com mais intensidade. Jurávamos que íamos morrer de fome, porque o dinheiro que tínhamos só dava para o ônibus. Foi nesse momento que a ideia surgiu: "Vamos a pé até a casa do vô?" Perguntei, envolto na esperança de que ali encontraríamos um santuário.
“Boa, lá deve ter comida!” Samuel respondeu com os olhos brilhando, e assim partimos. Mas a casa do vô ficava no final da avenida 13 de Maio, uma jornada de quase 4 quilômetros, e a cada passo, a caminhada piorava. Nossos estômagos roncavam de um jeito tão alto que podiam ser ouvidos até em nossos sonhos. As paradas para descansar na calçada tornaram-se inevitáveis, enquanto o calor da tarde se tornava quase insuportável. No entanto, a perspectiva de estar com nosso avô, de ouvir suas histórias enquanto devorávamos um lanche, valia cada esforço.
Finalmente, ao alcançarmos o portão da casa do vô Ricardo, o coração disparou. Ao abrir aquele portão, o chamado de “Vô! Vô!” escapou de nossas bocas, repleto de uma alegria genuína. Lá do fundo do quintal, apareceu meu avô, sorridente e iluminado pela luz do sol. Ele sempre cultivava uma horta que era o orgulho da família, e a enorme jabuticabeira, cenário de tantas brincadeiras, parecia sussurrar nossas memórias. Meu vô ria enquanto narrávamos as aventuras do dia, cada palavra batendo com a leveza de uma pluma.
Pão com manteiga, um generoso copo de leite com "toddy" e algumas bananas estavam à nossa espera, um banquete simples mas divino. Aquele momento foi não apenas um alívio para nossa fome, mas uma pausa para recordar nossas infâncias despreocupadas. Enquanto devorávamos aquilo, a felicidade nos invadia, e a saudade daquele dia nunca poderia ser extinta.
38 anos se passaram desde aquele dia, e mesmo hoje, sempre que Samuel e eu nos encontramos, não conseguimos evitar reviver aquela memória. O dia em que fomos aprovados na peneira do Comercial é eterno em nossos corações, assim como a casa do vô, nosso refúgio seguro, onde a simplicidade e o amor de uma refeição uniam nossos laços familiares, eternamente impresso em nossas memórias. O futebol ficou nos nossos sonhos, assim como a casa do vô Ricardo, mas, são os pequenos momentos da vida que se tornam as grandes lembranças, e a história do Comercial e do vô Ricardo será sempre a narrativa que nos une.
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