O passado, às vezes, se revela como uma brisa suave no nosso coração, trazendo à tona aromas, sabores e emoções que estavam adormecidos. É assim que me sinto quando fecho os olhos e sou transportado para a casa do meu avô Ricardo, um refúgio mágico que abrigou nossa família nas tardes mais ensolaradas e nas noites mais estreladas.
Meu avô era um contador de histórias magistral. Ele se sentava em sua cadeira de balanço, e todos nos reuníamos em volta, como se fôssemos folhas em torno do tronco de uma árvore, absorvendo sua sabedoria e encantamento. O tempo lá corria de forma diferente, as horas se misturavam em risadas e suspiros, e a presença dele se tornava eterna, mesmo quando a casa real, com seu corpo e voz, esteve conosco por apenas uma década.
Nessas memórias eternizadas, aprendi a cultivar a terra com as mãos sujas, a me perder nos segredos que as plantas medicinais escondiam, a pescar nas águas calmas, a tecer tarrafas sob a orientação de um olhar sábio e a jogar malha com a família, rindo e celebrando o simples. E, claro, as histórias de Zé Barnabé, as mais emocionantes e fantásticas, que ainda ecoam em minha mente e aquecem meu coração.
Mas, neste texto, quero falar das balas de mel. Sim, aquelas balas que meu avô comprava em quantidade generosa, como se fossem o ingrediente secreto para adoçar nossas histórias. Cada vez que ele distribuía uma, um brilho nos olhos de todos se acendia, uma festa de alegria. Menos em mim. Eu nunca gostei das balas de mel. Era um gesto de amor que eu aceitava, mas que, nas entrelinhas do meu ser, era mais uma diplomacia do que um verdadeiro deleite. E assim, em um pequeno conluio, sempre passava a minha bala para algum primo sorridente, como se estivesse escondendo um segredo precioso.
Não sei se meu avô um dia desconfiou dessa minha preferência disfarçada, mas, se pudesse lhe mandar uma mensagem, diria: “Vô, hoje, sinto saudades até das balas de mel.” Sinto falta do seu riso ao distribuí-las, do seu olhar ao relatar mais uma história. E, de alguma forma mágica, percebo que aquelas balas de mel, que nunca adoçaram minha boca, se tornaram uma metáfora para o amor que transbordava da sua presença.
Agora, nesse espaço que ele deixou, percebo que cada lembrança, cada história, cada bala de mel tem seu lugar no meu coração. A casa do meu avô, com sua energia, seus ensinamentos e suas peculiaridades, vive eternamente em mim. E meu amor por ele, diferente de qualquer bala de mel, é intenso e incondicional. É doce, como o mel, mas tem o sabor da saudade que nunca se apaga.
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