Você já passou uma madrugada acordado? As razões para isso são infinidade, pois a insônia pode vir vestida de ansiedade, solidão ou, por que não, de esperança. Eu tenho minhas madrugadas guardadas na memória, mas aquelas do longínquo 1994 têm um lugar especial no meu coração.
Foi nesse ano que prestei serviço militar em Ribeirão Preto. Às vezes, eu me via de pé, em plantões de 24 horas, na guarita do quartel. As noites eram frias, a farda ajustada ao corpo e o som do coturno ecoando em meio ao silêncio que parecia abraçar o mundo. Eu tinha apenas 19 anos e, diante daquela fronteira tão distante chamada futuro, uma mistura de curiosidade e apreensão me dominava.
Meus pensamentos se desenrolavam como um filme em câmera lenta. Era um momento único, onde, de pé, eu construía sonhos e projetos. Eu sonhava com amores que ainda estavam por vir, visualizava cenários que aguardavam pela minha chegada. O que seria da minha vida? Como eu imaginava que as coisas se desenvolveriam? A presença do jovem que eu era, encolhido naquelas horas intermináveis, trazia uma intensidade peculiar àquelas noites.
Nunca, em um vislumbre da minha ingenuidade juvenil, eu poderia imaginar que um dia chegaria aos 50 anos e escreveria sobre aquele jovem fardado, sonhador e solitário. Se eu pudesse, por um instante, voltar no tempo e me colocar ali, ao lado do muro da guarita, em uma das muitas madrugadas silenciosas, o que eu diria a ele?
É complicado encontrar as palavras certas. Eu me vejo naquele rapaz, repleto de esperanças e dúvidas, e, de certa forma, é como se estivéssemos em diálogo. “Obrigado”, eu diria. “Continue a sonhar, persista naquilo que arde dentro de você, pois é essa chama que vai guiar seus passos por onde quer que vá. Tenho orgulho de você, mesmo quando as incertezas pesam no seu coração.”
A verdade é que aquele jovem não sabia que os sonhos que fabricou nas madrugadas frias moldariam a trajetória da sua vida de maneiras que ele nunca poderia conceber. Ele, invisivelmente, se tornou o arquiteto de meu presente, construindo alicerces que sustentariam os anos vindouros. Por isso, cada pensamento disfarçado no silêncio daquela guarita reverberou como um mantra de autodescoberta, e eu sou grato por cada um deles.
Hoje, ao lembrar daquelas noites, percebo a beleza que há em sonhar, mesmo quando o futuro parece nebuloso. Porque por trás de cada amanhecer, existe o eco das promessas feitas em meio à solidão. E, assim como naquele tempo, sigo sonhando, um passo de cada vez.
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