sexta-feira, 27 de março de 2026

O bilhete esquecido num livro

 A tarde estava pesada e o céu estava encoberto por nuvens cinzentas quando recebi a mensagem através do Facebook. "Você é o Ricardo que estudou no Tomaz Alberto em Ribeirão Preto nos anos 90?" A dúvida inicial logo se dissolveu em curiosidade. Sim, sou eu, respondi rapidamente. A resposta veio quase que instantaneamente: "Que bom! Tenho uma surpresa para você. Vamos nos encontrar na Biblioteca Pública e Comunitária."

Naquela tarde, enquanto caminhava pelas ruas, uma sensação estranha me acompanhava. O que poderia ser essa surpresa? Ao chegar à biblioteca, a primeira coisa que notei foi o cheiro de papel envelhecido, um aroma que me transportava de volta para tempos mais simples. Seus corredores eram conhecidos, mas o velho espaço tinha um ar de mistério quase palpável.

"Você é o Ricardo?" Uma senhora idosa me abordou, seu rosto iluminado por um sorriso nostálgico. 

"Sim, sou eu," respondi. "Você me chamou aqui?"

"Sim, querido," ela disse, com uma voz suave. "Venha comigo."

Ela me levou a uma estante no fundo da biblioteca, de onde pegou um enorme dicionário com um esforço visível. A capa estava gasta, e o livro parecia ter mais histórias do que eu poderia imaginar. Com delicadeza, ela abriu o livro quase ao meio.

"Olhe," disse ela, movendo uma página e revelando um pequeno papel que estava cuidadosamente escondido.

Demorou um minuto até que eu pudesse processar o que via. Era o bilhete que nós, eu, Evandro, Kenedi e Paulão, havíamos escrito trinta anos atrás e que havíamos escondido em um daqueles livros grossos e que ninguém abre numa das tardes em que fazíamos algum trabalho de pesquisa na biblioteca pública.

"Não posso acreditar!" exclamei, pegando o bilhete em mãos trêmulas. "Estávamos tão jovens naquela época...".

"Tem as assinaturas com os nomes de vocês", disse a senhora. Busquei informações na escola e cheguei até você.

Com um olhar bondoso, a senhora se afastou, permitindo que eu examinasse o que havia escrito. As palavras de cada um estavam ali, aninhadas numa caligrafia juvenil que parecia tão distante e ao mesmo tempo tão íntima. O meu próprio resumo me pegou de surpresa:

"Quem abrir este bilhete, saiba que aqui é o Ricardo Jimenez, e escrevo este bilhete com a esperança de um futuro feliz, tendo orgulho do que faço e fiz."

Naquele momento, fui golpeado por uma onda de emoções avassaladoras. Era como se tivesse recebido uma mensagem de um eu mesmo há muito esquecido. O passado e o presente se fundiram, e eu me senti no centro de uma máquina do tempo.

"Você está bem?" a senhora perguntou suavemente, percebendo a lágrima que escorreu pelo meu rosto.

"Eu... eu não sei," respondi, com a voz falhada, a beleza e a tragédia dos meus 50 anos se misturando em uma só lembrança.

"Esse bilhete carrega memórias," ela disse. "Ele é a prova de que o tempo pode ser um círculo, e não uma linha. Você ainda pode cumprir o desejo daquele garoto."

Saí da biblioteca segurando o bilhete com firmeza, as lágrimas agora transbordando livremente. As palavras que eu havia escrito aos 17 anos ecoavam em minha mente, e me perguntei: eu cumpri o desejo daquele jovem? Será que, ao longo das últimas três décadas, fiz jus a suas esperanças e sonhos? 

Com o bilhete apertado contra o coração, deixei a biblioteca. A chuva começou a cair, mas, em vez de tristeza, eu sentia uma estranha alegria. Estava prestes a embarcar em uma jornada de autodescoberta, guiado pelo eco do meu eu mais jovem.

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