Ah, 1994! Um ano que ficou gravado na minha memória como um verdadeiro desfile de aventuras, sustos e muita risada. Naquela época, eu estava alistado no Tiro de Guerra, onde acordar antes do sol surgir e vestir a farda se tornou uma rotina que eu nunca pensei que fosse tão… interessante. E não, não estou falando de um emocionante militarismo, mas sim de passar os sábados e domingos em um quartel isolado em Ribeirão Preto, onde o único "combate" era a luta contra o tédio.
Certa vez, durante um desses intermináveis plantões, decidimos que contar histórias era a solução perfeita para amenizar a monotonia. E assim, nos reunimos no pátio após o jantar, cada um mais disposto do que o outro a desvendar os mistérios da alma humana… ou simplesmente a inventar um bom terror. O Recruta Sá, com seu olhar brilhante e voz de narrador de rádio, começou a falar sobre fantasmas e vampiros, transformando o nosso lamento noturno em um verdadeiro espetáculo de terror. Depois de algumas horas, nossa conversa se dissipou e cada um voltou aos seus afazeres, sem saber que o verdadeiro susto ainda estava por vir.
Por volta das 2 da manhã, o cenário pacato do quartel foi abruptamente quebrado pelo berreiro do Recruta Oliveira, que entrou no dormitório como um furacão. “Vi o diabo! O diabo está lá fora!” – gritou, e em um instante, o quartel se transformou em um quadrado de tensão. Aqueles olhos arregalados dele poderiam fazer qualquer um acreditar que estávamos diante de uma entidade sobrenatural.
Todos trocamos olhares e o medo começou a contagiar o grupo. Ficamos ali, plantados, sem coragem de enfrentar “o diabo”. Mas Sá, com seu espírito audacioso, pegou seu fuzil com a bravura de um verdadeiro herói (ou seria um grande idiota?) e decidiu que era hora de encarar o que quer que estivesse assombrando Oliveira. Saímos atrás dele, um grupo de guerreiros medrosos, cada um a uma distância segura.
Quando finalmente chegamos ao fundo do quartel, o silêncio da noite parecia quase palpável, e nossos corações batiam como tambores de guerra. Então, do fundo da escuridão, Sá bradou: “Achei o diabo!” E por alguns segundos, o mundo parou. O que será que ele encontrou? Um espírito maligno? Um fantasma sanguinário?
Quando nos aproximamos, porém, a verdade nos atingiu como um balde de água fria: o “diabo” do Oliveira não era nada mais do que um bode enorme, daqueles que vagam livremente em sítios e que aparentemente achou que nosso quartel era um excelente lugar para fazer um lanche de grama. O olhar de horror de Oliveira se transformou em alívio, seguido de uma onda geral de gargalhadas. O bode, indiferente ao caos que causara, continuava ali, pastando serenamente.
Depois de expulsarmos o bode e voltarmos à rotina do quartel, sabíamos que aquela história se tornaria uma lenda. E assim foi. Até hoje, décadas depois, as novas gerações no quartel ouvem a história do “diabo” que era, na verdade, um bode vagabundo, arrancando risadas e desafiando outros recrutas a enfrentar suas próprias sombras. Afinal, quem diria que um simples animal poderia ser o ingrediente essencial de uma amizade forjada na loucura e no riso? Ah, a vida de soldado nunca foi tão divertida!
Nenhum comentário:
Postar um comentário