quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Na casa do padre

Por alguns anos, tive a sorte de ser amigo de um padre belga que vivia em Ribeirão Preto. Seu nome era Padre Chico, um homem de riso fácil e palavras sábias. Ele adorava convidar os amigos para um café da manhã ou um almoço na casa paroquial, onde as longas conversas fluíam como o melhor dos vinhos. Era nesses momentos que ele falava sobre sua vida na Bélgica, sua ousada mudança para o Brasil e sua forte conexão com as causas sociais da região. Cada encontro era uma celebração da amizade, repleta de histórias e, por vezes, de risadas.

Lembro-me de uma ocasião em que ele nos convidou para almoçar: eu e meu amigo Filipe, um jornalista com alma de poeta. Era um dia ensolarado, e a expectativa pela refeição era palpável. Ao chegarmos, fomos recebidos com um belo sorriso do padre e o aroma de sua cozinha. Ele nos serviu uma entrada peculiar: endívias recheadas, um prato típico de sua terra natal.

“Espero que gostem, é uma iguaria belga,” disse Padre Chico, com seu sotaque doce e um brilho nos olhos.

Acontece que a endívia estava especialmente amarga. Eu, educado, comi a minha, mas Filipe, astuto como sempre, decidiu disfarçar. Antes que o padre pudesse prestar atenção, ele discretamente lançou a sua endívia no vaso de planta mais próximo.

“E então, Filipe, como você gostou da endívia? Quer mais?” perguntou Padre Chico, percebendo que o prato do jornalista estava vazio e já pegando outra para servir.

A endívia, já previsível, voou novamente no vaso, fazendo com que eu não conseguisse conter uma risada. No entanto, o padre, sempre otimista, não parecia se dar conta da cena cômica que se desenrolava diante dele.

Finalmente, chegou o grande momento: o prato principal. Padre Chico trouxe um generoso prato de almôndegas no molho de tomate, que exalavam um aroma delicioso. “Agora, isso vocês vão adorar!” exclamou ele, satisfeito.

Filipe, com a fome de quem não havia comido até então, rapidamente se serviu de duas grandes almôndegas e as devorou em um piscar de olhos. Já se preparando para outro prato, ele mal conseguia conter a empolgação.

Quando o almoço estava chegando ao fim e o café estava sendo servido, aproveitei a oportunidade quando Filipe saiu para o banheiro. O padre me olhou com ar cúmplice e disse, ainda com seu sotaque freanco-belga:

“Seu amigo come bastante, hein? Acho que ele adorou as endívias.”

Sorri, não só concordando com a observação do padre, mas também imaginando a cena em que a mulher que ajudava na limpeza da casa do padre encontraria as duas endívias abandonadas no vaso. Era uma situação inusitada, uma mistura perfeita de amizade e humor que tornava aqueles almoços ainda mais memoráveis. A amizade com Padre Chico e as risadas que compartilhamos estão gravadas em minha memória, um reflexo da simplicidade e do amor que ele trazia para aqueles momentos.

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