Era o ano de 1990, um tempo em que a vida se desenrolava como um grande mistério ainda por desvendar. Eu estava no primeiro ano do ensino médio, mais precisamente na escola Tomaz Alberto, um lugar onde jovens de toda a cidade se encontravam e onde as nuances da vida começavam a se ampliar diante de mim. Na escola anterior, um pequeno colégio de bairro, meus dias eram preenchidos por partidas de futebol e risadas no pátio. As conversas eram sempre as mesmas, as opiniões restritas e a visão de mundo limitada. Mas o Tomaz Alberto prometia algo diferente, e eu mal sabia quão transformadora seria essa mudança.
Certa tarde, já lá pelo meio do ano letivo, um colega de classe que se destacava pela sua maneira peculiar de ser, Kenede, me lançou uma pergunta que fariam daquelas palavras um divisor de águas em minha vida: “Você conhece a biblioteca da escola?” Eu, pego de surpresa, respondi com um tímido “não”. A expressão dele se alterou, como se eu tivesse cometido uma grande falta. “Estamos no meio do ano e você nunca entrou na biblioteca da escola?” Aquelas palavras soaram como um eco distante, relembrando-me de um passado em que a biblioteca era apenas um local de obrigações escolares.
Um misto de curiosidade e nervosismo me fez seguir Kenede quando ele me convidou: “Vem comigo”. Foi assim que, pela primeira vez, cruzei o limiar de um lugar desconhecido. Ao abrir a porta, fui recebido por um aroma inconfundível, aquele cheiro que só os livros têm. Estantes repletas de volumes aguardavam por mim, e um mundo novo começava a se revelar. Kenede, em seu jeito entusiasmado, foi me guiando: “Aqui é literatura brasileira, aqui é literatura portuguesa...” Suas palavras vibravam de uma paixão que eu mal compreendia.
Ele parou diante de uma prateleira e disse: “Aqui estão os livros de mistério e policiais, meus preferidos.” Era como se a biblioteca fosse um templo, e ele fosse o sacerdote de um conhecimento secreto. “Isto aqui, a coleção Agatha Christie, conhece?” Eu balançava a cabeça, incerto e intrigado. Ele me olhou com um misto de espanto e empolgação e, como se estivesse fazendo a entrega de um tesouro, me passou um livro: “Toma este, leia e depois me fala”. Era "Os Quatro Grandes", um dos muitos mistérios proporcionados pelo genial Hercule Poirot.
Quando cheguei em casa naquela noite, o habitual desejo de brincar na rua foi substituído por uma nova chama que ardia dentro de mim. Tomei banho, fiz uma refeição rápida e me deixei cair no sofá, ansiando por descobrir o que aquelas páginas tinham a oferecer. E assim, ao abrir o livro, desencadeei uma paixão que, até hoje, me acompanha. Desde então, fui me perdendo nas páginas de Agatha Christie, colecionando cada história, cada mistério do já familiar Poirot. Há anos, Poirot não é apenas um personagem, mas um amigo que eu reencontro a cada virada de página, principalmente nas histórias onde ele conta com a ajuda de seu (nosso) amigo Hastings.
Hoje, ao lembrar daquele dia, daquela tarde saudosa de um dia de aula nos idos de 1990, sou tomado por uma profunda gratidão pelo Kenede, aquele jovem tímido e diferente que, através de sua curiosidade sincera, abriu as portas de um mundo que eu não sabia que estava me esperando. Ele me levou a uma viagem sem fim pela literatura, onde as histórias se entrelaçam com a vida de uma forma que, por vezes, mal conseguimos captar. Naquela tarde distante de um dia comum de 1990, ele não me deu apenas um livro; ele me deu a liberdade de imaginar, de questionar, de sonhar. E por isso, sempre serei seu eterno agradecido.
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