terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Os apuros do mestrado

Era uma vez um estudante de mestrado em Química (sim, sou eu!) que se viu enfiado até o pescoço em uma reação que se recusava a colaborar. Foram três meses de tensão e frustração, como se eu estivesse tentando convencer um gato a tomar banho. O prazo do mestrado estava se aproximando mais rápido do que eu gostaria de admitir, e minha pesquisa parecia mais um drible do que um gol. 

Até que chegou a véspera de Natal de 2001. O campus da USP estava silencioso, com uma tarde quente que deixava o ar pesado, como se todas as reações químicas do mundo estivessem se escondendo em algum lugar. Enquanto isso, eu estava lá, cercado por frascos de vidro e papel toalha, a eterna luta contra a natureza. "Hoje é o dia", pensei, mais esperançoso do que um crente em véspera de feriado.

Com a mistura fervendo na bancada, senti que estava prestes a passar de "pesquisador frustrado" para "grande gênio da química". O cheiro do laboratório era uma mistura única de produtos químicos e o aroma do café que eu havia tomado às três da manhã, que ainda estava impregnado nas minhas roupas (e na minha alma). O aroma do café me fazia acreditar que eu podia enfrentar qualquer reação. E lá estava eu, como uma espécie de alquimista moderno, esperando por um milagre.

E então, como numa cena de filme, a mágica aconteceu! A reação finalmente deu certo! Eu quase chorei de alegria, ou talvez fosse só o resquício daquela última xícara de café que tomei. Naquele momento, eu sabia que meu trabalho de mestrado, que havia se tornado uma verdadeira novela, estava prestes a encontrar um desfecho feliz.

Enquanto celebrava essa pequena vitória, lembrei-me de todas aquelas noites em claro, das conversas informais com os guardas que faziam a ronda, e de como eles se divertiam com minhas histórias desesperadas sobre substâncias e fórmulas. Aquelas trocas de ideias tão bizarras quanto divertidas tornaram-se parte da minha jornada, e agora, aqui estava eu, correndo para reunir as peças do meu trabalho.

Naquele 24 de dezembro, ao olhar pela janela e ver as luzes de Natal piscando, percebi que todas aquelas tardes e noites intermináveis se transformaram em memórias incríveis. Podem não voltar mais, mas eu sempre as guardarei como um troféu — um diploma e um coração cheio de histórias insólitas. Porque, no final das contas, a pós- graduação não se mede apenas em reações químicas bem-sucedidas, mas na química que fazemos com as experiências vividas. Ah, e claro, sempre que eu sentar para tomar um café, não poderei deixar de lembrar do aroma que me guiou até aquela tarde mágica.

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