Era uma vez, em 1992, numa época em que o cabelo bagunçado e a calça de baggy eram sinônimo de estilo, estávamos nós, os gladiadores das quadras, no nosso glorioso terceiro ano do ensino médio. A vida era uma montanha-russa de aulas chatas, boladas na escola e sonhos de ser jogador de futebol, astronauta ou, quem sabe, o novo rockstar. Ah, aquela doce mistura de desespero juvenil e esperança!
E foi assim, nesse espírito de aventura e um pouquinho de desprezo pelas consequências, que decidimos nos inscrever para o interclasse. Ah, a esperança de ser campeões! Nossa equipe era uma verdadeira salada de talentos e... sem talentos. Tínhamos o nosso campeão, Kenede, um goleiro que poderia enfrentar qualquer ataque com apenas uma mão (e isso se ele estivesse distraído). Depois, tinha eu, mais ou menos habilidoso (pelo menos, não perdi todos os dribles), e aí vinha o nosso "Magu, o Mago". O Magu era uma lenda em sua própria mente, mas por conta dos óculos, ele preferia jogá-los de lado para que o mundo se tornasse uma grande névoa. Resultado? Ele via vultos e distribuía pontapés como se fossem confetes numa festa.
Agora, adivinha como foram os preparativos? Uma verdadeira expressão de otimismo! E lá fomos nós encarar o time favorito do campeonato, que, por acaso, já estava com a taça na mão antes mesmo do apito inicial. O jogo começou e, contra todas as possibilidades, eu fiz o primeiro gol. Um milagre! E logo depois, lancei uma assistência perfeita para o Paulão, que, apesar de parecer um pouco um tamanduá na hora de cabecear, conseguiu marcar! O placar marcava 2 a 0 para nós e a torcida começou a pensar que tinha caído em um universo alternativo.
Foi quando me aproximei do nosso paredão, Kenede, e fiz a proposta do século: “Se eu marcar o atacante deles, você pega todos os outros chutes que vierem?” Ele olhou pra mim como quem visualizava um futuro cheio de glórias e respondeu: “Deixa comigo!” Ali, naquele momento, formamos uma dupla imbatível. Eu corria atrás do atacante igual um cãozinho atrás de um carro, enquanto o Kenede defendeu bola como se sua vida dependesse disso. O pobre atacante via suas tentativas frustradas e a cada defesa do Kenede, ele parecia se perguntar se tinha sido abduzido por extra-terrestres tão habilidosos.
Lembro de um momento em que a bola, como uma artista rebelde, fez um show maluco: bateu em uma trave, depois na outra, dançou em cima da linha e, no final, decidiu ir aos braços do Kenede, que a segurou como se fosse um troféu. E ali estava ele, o gigante que nem sabia que jogava com olhos vendados!
Fim de jogo! Vitória! E mesmo que os favoritos tenham seguido em frente e ganhado o campeonato, nós éramos os verdadeiros campeões do nosso próprio mundo. Até hoje, quando nos encontramos na rua, a lembrança daquele jogo mágico nos faz rir até a barriga doer. Afinal, naquele dia, ganhamos muito mais do que um jogo; ganhamos dignidade e uma história que nunca iremos esquecer. Magu, o Mago, e o nosso espírito guerrilheiro nunca deixaram de nos acompanhar. Que época, hein?
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