quinta-feira, 2 de abril de 2026

A unha do tamanduá

Era uma época em que a vida pulsava nas fazendas, onde as caçadas e pescarias eram o coração da existência, e as conversas à luz do candeeiro aqueciam as noites após um dia de trabalho. Nessa agitação, vivia uma figura excepcional: Zé Colodino.

Eu, ainda um menino, conheci-o numa tarde ensolarada, levado por meu avô. Nessa fase, Zé já residia na cidade, aposentado das lidas do campo, em uma casa que exibia uma varanda fresca, rodeada por um quintal extenso, perto da antiga estação. Apesar de nossas interações serem poucas, talvez apenas uma dúzia de encontros, as histórias que ele contava na varanda marcaram minha infância indelével.

Uma dessas histórias, em particular, tornou-se um símbolo de coragem e aventura em minha memória. 

As caçadas na mata do Capão eram o passatempo mais cobiçado das tardes de domingo. Não se tratava de caçadas ordinárias; ali podia-se caçar de tudo, desde um simples tatu-peba até um bando de codornas, um cateto e, quem sabe, até uma onça. É verdade que onças, de fato, nunca apareceram, exceto por uma ou outra jaguatirica miúda, mas a ideia de enfrentar uma onça sempre pairava no ar.

Naquela tarde, Zé Colodino armou-se de coragem, acompanhado de seu compadre e dos fiéis cães de caça: Perigosa, uma cadela desenvolvida por bravura, e Corisco, um vira-lata preto, astuto e com um faro inigualável. Com a garrucha de cano duplo e o facão guarani pendurados ao cinto, Zé Colodino liderou o grupo na travessia da trilha.

A mata do Capão, vasta e inexplorada, já assustava à luz do dia; à noite, era um mistério profundo, habitado por perigos visíveis e invisíveis. O medo da onça pairava sobre todos, embora poucos tivessem coragem de mencioná-lo em voz alta. O compadre, de face pálida e olhos arregalados, revelava que aquela era sua primeira vez e a aventura que o aguardava ainda estava no horizonte.

“Vamos ‘bordejar’ essa mata, meninos!”, exclamou Zé, enquanto assobiava um tom de esperança. A caçada começava na transição do dia para a noite, e os sons da natureza cresciam ao redor deles. Corisco parou abruptamente, orelhas em pé.

— Shhh! — Zé fez um gesto para que todos se agachassem, inclusive Perigosa, que se aproximou dele.

O compadre, com o coração acelerado, murmurava baixinho: “Que seja um tatu… Por favor, não uma onça.” 

E então, os olhos de Zé brilharam. — “É um casal de catetos! Vai, Perigosa!”

Com um salto poderoso, os catetos dispararam mato adentro, seguidos pela cadela e Corisco. Zé Colodino mergulhou na mata com um fervor impressionante, e o compadre, tomado pelo espírito da aventura, não ficou para trás. 

A escuridão começou a tomar conta da floresta, mas, seguindo os latidos frenéticos dos cachorros, o compadre encontrou o local onde Perigosa guardava o cateto abatido. A carne e a banha da semana estavam garantidas, mas Zé… onde estava Zé Colodino?

Um estrondo cortou o ar, o tiro da garrucha reverberando a cerca de cinquenta metros de distância. Com o coração no peito, o compadre lutou através da vegetação até que ouviu gemidos agonizantes. — “Ai, ai…”

Quando finalmente encontrou Zé, ele estava preso em uma moita de taboca, o corpo quase que todo enredado naquelas folhas traiçoeiras.

— “Que foi, Zé?” — perguntou o compadre, com uma voz trêmula.

— “Me ajuda, homem!” — a voz de Zé soava desesperada.

Com habilidade e um punhal afiado, o compadre cortou as amarras de taboca que prenderam Zé. Mesmo ensanguentado, não havia tempo para palavras; pegaram o cateto e retornaram.

Na sala de casa, depois de tratar da ferida nas costas, Zé se levantou, um brilho travesso nos olhos. — “Olhem isso!” Ele exibiu a unha afiada do tamanduá-bandeira, que quase lhe custara a vida.

— “O que aconteceu?”, perguntou um dos presentes, admirado.

— “Eu não vi o tamanduá! Quando entrei na mata, mudei de direção e caí na toca da besta! O bicho me abraçou, e só não fui pro beleléu porque a unha grudou na taboca...”

Todos riram, menos eu. O silêncio se instalou, enquanto absorvia a intensidade da história. Zé lançou um olhar cúmplice para mim e para meu avô. Ambos riram de forma descontraída, e Zé se levantou, retornando à varanda. Ele estendeu a mão na minha direção, revelando a unha do tamanduá.

— “Quer ver mais?”

Nem me recordo da minha resposta, mas ao tirar a camisa, vi a marca na própria pele, na altura do pulmão.

No caminho de volta para casa, a conversa fluiu como um rio tranquilo; meu avô parecia perdido em pensamentos, mas eu sabia que a história do Zé Colodino, a unha do tamanduá e aquela marca nas costas me acompanhariam para sempre, como um eco das aventuras que moldaram minha infância.

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