quinta-feira, 2 de abril de 2026

O dia que acabou e eu nem percebi (Musa)

Nós nunca sabemos se é pela última vez. Essa verdade simples e profunda ecoa em nossas vidas de maneiras que muitas vezes não conseguimos perceber. Muitas vezes, dizemos adeus sem saber que aquele será o último olhar, o último sorriso, a última risada compartilhada. 

Lembro-me do final de 1989, um tempo em que minha infância se desdobrava em algumas das memórias mais queridas da minha vida. Foi naquele período que ouvi, pela última vez, o sinal que anunciava a hora da saída da escola Musa, onde passei oito anos mergulhado em descobertas e aprendizagens. Não tenho recordações claras do último dia, mas cada instante vivido ali continua a vibrar em mim, como as cordas de uma guitarra tocando uma melodia eterna.

O Musa era mais do que uma instituição; era um lar, um refúgio onde aprendi a me defender nas disputas de ideias e nos jogos de tabuleiro, a entender o que significa ter um amigo e estar disposto a ser um. Foi na sala de aula que os professores inesquecíveis me ensinaram a sonhar, a namorar, a superar as dificuldades – um verdadeiro campo de batalha onde cada pequeno triunfo se tornava uma vitória. 

As tardes eram preenchidas por aventuras nas quadras, por campeonato de futebol que o seu Cláudio organizava com tanto entusiasmo, pela cantina do seu Viana, onde os lanches saborosos e os risos se misturavam. As broncas de seu Lair eram quase uma cerimônia de passagem; eu via naquela rigidez uma preocupação genuína, um desejo de nos ver crescer. E como esquecer o olhar penetrante da dona Guimar, a inspetora que nos acompanhava com a firmeza de uma mãe? Sua presença mantinha a ordem e o respeito num ambiente repleto de sonhos e inquietações adolescentes.

Entrei no Musa como uma criança de sete anos, e saí um rapaz de quatorze, transbordando memórias que criaram a base do que eu sou hoje. Não me recordo exatamente de como foi aquela última tarde; talvez cheguei com minha mochila gasta, trocando ideias com amigos ao sentar na mureta do pátio como sempre fazíamos, ou chutando uma bola despreocupadamente, como se o tempo não tivesse pressa. 

E então, com o coração apertado, atravessei o portão pela última vez. Sabia que deixava para trás não apenas um espaço físico, mas uma parte de mim, uma fase da vida que se despedia, carregando na mochila as risadas, os sonhos e as lições, como um tesouro inestimável. 

Nunca soubemos que era a última vez. Mas, numa dessas despedidas silenciosas, aprendemos que o que realmente importa são as experiências vividas, os vínculos formados e o amor que se perpetua na memória. O Musa, minha eterna segunda casa, vive em mim. Ele será sempre um pedaço do meu coração.

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